quarta-feira, 6 de maio de 2026

O TikTok mental

Por Jânsen Leiros Jr.

 

Quando a pressa vira pensamento, a opinião vira reflexo e a profundidade passa a parecer uma forma de resistência. 

“O meio é a mensagem.” — Marshall McLuhan (teórico canadense da comunicação, professor e autor de Understanding Media, obra fundamental sobre os efeitos dos meios de comunicação na percepção e na vida social)

“A massa esmaga sob si tudo o que é diferente, tudo o que é excelente, individual, qualificado e seleto. Quem não é como todo mundo, quem não pensa como todo mundo, corre o risco de ser eliminado.” — José Ortega y Gasset (filósofo e ensaísta espanhol, autor de A Rebelião das Massas)

“Foi pura irreflexão — algo que não é de modo algum idêntico à estupidez — que o predispôs a se tornar um dos maiores criminosos daquele período.” — Hannah Arendt (filósofa política alemã, autora de Eichmann em Jerusalém e formuladora da ideia da banalidade do mal) 

Há um tipo de pensamento contemporâneo que já não pensa. Apenas reage.

Ele não contempla, não investiga, não suporta a demora de uma pergunta difícil. Precisa de frases curtas, certezas rápidas, inimigos fáceis e slogans prontos para vestir como se fossem convicções.

É o pensamento em modo rolagem infinita.

Uma ideia aparece, outra interrompe, outra substitui, outra ridiculariza, outra cancela, outra viraliza. E, no fim, quase ninguém sabe exatamente o que pensa. Sabe apenas o que deve parecer pensar.

Vivemos cercados por pessoas que confundem opinião com lucidez, repetição com consciência, engajamento com profundidade. Gente que não amadurece uma ideia: apenas compartilha. Não examina um argumento: apenas escolhe um lado. Não busca a verdade: busca pertencimento.

É uma forma fútil de viver. Mas não uma futilidade inocente. É uma futilidade abusiva, porque exige que todos se submetam à mesma pressa, à mesma superficialidade, à mesma preguiça mental travestida de modernidade.

Quem pensa devagar passou a parecer estranho. Quem pondera virou suspeito. Quem hesita antes de julgar é acusado de fraqueza. Quem tenta compreender antes de condenar é tratado como cúmplice.

E assim vai se formando uma geração de consciências terceirizadas: pessoas que não pensam, apenas obedecem ao pensamento dominante do dia. Hoje repetem uma indignação; amanhã repetem o seu oposto, se o algoritmo mandar.

Talvez o maior problema do nosso tempo não seja a falta de opinião. É o excesso de opiniões sem pensamento.

Porque uma sociedade que desaprende a pensar em profundidade se torna fácil de conduzir. Basta oferecer uma frase de efeito, uma imagem forte, uma emoção fabricada, e multidões inteiras passam a acreditar que chegaram a uma conclusão — quando, na verdade, apenas foram empurradas até ela.

O pensamento raso não é apenas limitado. Ele é perigoso.

É perigoso porque dá às pessoas a sensação de inteligência sem exigir delas o trabalho da reflexão. Dá a impressão de participação sem compromisso com a verdade. Dá a emoção de estar do lado certo sem a responsabilidade de examinar se esse lado existe de fato, se é justo, se é honesto, se é humano.

E talvez seja isso que torne esse fenômeno tão revoltante: não se trata apenas de ignorância. Trata-se de uma ignorância convencida de si mesma. Uma superficialidade vaidosa, barulhenta, satisfeita com a própria incapacidade de aprofundar qualquer coisa.

A pressa virou método. A indignação virou identidade. A frase pronta virou argumento. A repetição virou prova. O pertencimento virou consciência.

Mas pensar exige demora.

Exige silêncio. Exige desconforto. Exige a coragem de não pertencer imediatamente a nenhum rebanho. Exige suportar perguntas que ainda não têm resposta. Exige desconfiar até das próprias certezas, sobretudo daquelas que chegam prontas demais, emocionais demais, convenientes demais.

Talvez por isso a profundidade incomode tanto.

Ela não cabe no corte de quinze segundos.

Não obedece à pressa do feed.

Não dança conforme a música da massa.

Não se ajoelha diante da opinião mais repetida.

A profundidade é quase um ato de resistência.

Resistir, hoje, talvez comece exatamente por isso: recuperar o direito de pensar antes de repetir. De desconfiar antes de aderir. De silenciar antes de opinar. De compreender antes de condenar. De aceitar que nem toda pergunta precisa virar postagem, nem toda dor precisa virar performance, nem toda convicção precisa ser gritada para parecer verdadeira.

Há uma diferença imensa entre ter voz e ter pensamento.

A voz pode ecoar o que recebeu. O pensamento precisa atravessar o que recebeu. A voz pode ser treinada pela multidão. O pensamento precisa ser forjado na solidão. A voz pode viralizar. O pensamento precisa amadurecer.

E talvez seja isso que esteja faltando: maturidade interior.

Não apenas informação. Não apenas acesso. Não apenas repertório acumulado em frases soltas, vídeos rápidos e opiniões de ocasião. Falta espessura. Falta permanência. Falta a disposição de atravessar a superfície das coisas até encontrar alguma verdade que não dependa do aplauso imediato.

Num mundo satisfeito em virar espuma, pensar com profundidade é recusar a dissolução.

É dizer não à vida fútil disfarçada de atualização permanente.

É dizer não à consciência terceirizada.

É dizer não ao algoritmo como pastor da alma.

É dizer não ao pensamento que já nasce querendo curtida.

Porque viver sem profundidade pode parecer leve.

Mas, no fundo, é apenas outra forma de desaparecer.

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