quinta-feira, 30 de abril de 2026

Selic cai, mas a cautela continua

por Jânsen Leiros Jr.

"Frequentemente, as formas pelas quais as pessoas produzem estatísticas são falhas: seus números podem ser pouco mais que suposições." — Joel Best (sociólogo norte-americano, especialista em estatísticas sociais e autor de Damned Lies and Statistics)

"Um dos grandes erros é julgar políticas e programas por suas intenções, e não por seus resultados." — Milton Friedman (economista norte-americano, Prêmio Nobel de Economia) 

A decisão do Copom de reduzir a taxa Selic para 14,50% ao ano merece ser observada com cuidado. À primeira vista, uma queda nos juros pode parecer uma notícia positiva: alivia parte da pressão sobre crédito, empresas, consumo e endividamento. Mas, no caso brasileiro, o movimento precisa ser lido dentro de um quadro mais amplo — e menos eufórico.

O Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,50% ao ano, no segundo corte consecutivo do atual ciclo. A decisão foi unânime e veio acompanhada de um discurso de cautela. O próprio Copom afirmou que o cenário exige serenidade, especialmente diante das incertezas externas, dos riscos geopolíticos e da necessidade de conduzir a inflação para a meta.

Ou seja: não se trata de uma decisão tomada em ambiente plenamente confortável. A política monetária brasileira continua fortemente restritiva. Mesmo com o corte, os juros permanecem em patamar elevado, o que indica que o Banco Central não está propriamente “acelerando” a economia, mas apenas retirando uma pequena fração do peso que vinha impondo sobre ela.

O dado que mais recomenda prudência é a inflação. Segundo a Reuters, o Banco Central elevou sua projeção de inflação para 4,6% em 2026, ainda acima do centro da meta de 3%. Além disso, a inflação em 12 meses chegou a 4,37%, pressionada por itens como transporte e alimentos. O Boletim Focus, por sua vez, mostrou que o mercado projetava inflação de 4,86% para 2026, além de crescimento do PIB em torno de 1,85% e Selic de 13% ao ano no fim do período.

Portanto, a pergunta é legítima: se a inflação ainda preocupa, se o cenário externo continua incerto e se o próprio Banco Central evita qualquer sinal de relaxamento excessivo, por que cortar novamente?

A resposta técnica existe. A Selic estava em nível muito alto, próximo dos maiores patamares das últimas décadas, e o custo do dinheiro já vinha pressionando famílias, empresas e crédito. Uma redução pequena, de apenas 0,25 ponto percentual, pode ser defendida como ajuste gradual, sem abandono da política de controle inflacionário. Nesse sentido, o corte não é tecnicamente indefensável.

Mas também não convém ingenuidade.

Estamos em ano eleitoral. E, em ano eleitoral, toda decisão econômica relevante passa a ter uma segunda vida: a vida da narrativa. O corte de juros pode ser pequeno no comunicado do Banco Central, mas dificilmente será pequeno no discurso político. Juros em queda produzem manchetes, alimentam falas oficiais, ajudam a sustentar a ideia de melhora econômica e oferecem ao governo uma linguagem simples para dialogar com o eleitor: “os juros começaram a cair”.

O histórico brasileiro, porém, recomenda cuidado antes de transformar essa percepção em acusação automática. Não há uma regra clara de que a Selic sempre cai em anos eleitorais. Em 2002, por exemplo, a taxa estava em 18% no mês anterior à eleição; em 2006, em 14,25%; em 2022, em 13,75%. Em outros ciclos, houve manutenção ou movimentos condicionados por inflação, câmbio, crise fiscal e expectativa de mercado.

Isso mostra que o Banco Central nem sempre atua para aliviar o ambiente eleitoral. Às vezes, faz o contrário. Ainda assim, uma coisa é a lógica técnica da decisão; outra é o aproveitamento político que se faz dela.

E é aqui que a análise precisa ser equilibrada. Não há base suficiente para afirmar que a redução da Selic seja simplesmente uma manobra eleitoral. Mas também seria ingênuo ignorar que, em ano de eleição, qualquer sinal de melhora econômica será apropriado politicamente com intensidade muito maior do que seu peso técnico real.

Para o investidor conservador, especialmente aquele posicionado em produtos pós-fixados, a notícia reduz um pouco a atratividade futura da renda fixa. Para quem está em prefixados ou títulos indexados à inflação adquiridos em taxas mais altas, pode haver ganho de marcação a mercado. Para empresas e consumidores, o alívio existe, mas ainda é pequeno. Para o governo, porém, o efeito simbólico pode ser grande.

A redução da Selic para 14,50% não autoriza euforia. Ela indica uma transição lenta, cautelosa e ainda cercada de riscos. O Brasil continua com juros elevados, inflação acima do centro da meta e crescimento modesto. A economia não entrou em terreno benigno; apenas recebeu um sinal tímido de alívio.

Por isso, a leitura mais honesta talvez seja esta: o corte é tecnicamente justificável pelo nível ainda muito restritivo da Selic, mas politicamente conveniente demais para passar despercebido.

O corte pode ser pequeno, mas o discurso político sustentado nele será enorme. Vamos aguardar.

 




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