"Frequentemente,
as formas pelas quais as pessoas produzem estatísticas são falhas: seus números
podem ser pouco mais que suposições." — Joel Best (sociólogo norte-americano, especialista em
estatísticas sociais e autor de Damned Lies and Statistics)
"Um dos grandes erros é julgar políticas e programas por suas intenções, e não por seus resultados." — Milton Friedman (economista norte-americano, Prêmio Nobel de Economia)
A
decisão do Copom de reduzir a taxa Selic para 14,50% ao ano merece ser
observada com cuidado. À primeira vista, uma queda nos juros pode parecer uma
notícia positiva: alivia parte da pressão sobre crédito, empresas, consumo e
endividamento. Mas, no caso brasileiro, o movimento precisa ser lido dentro de
um quadro mais amplo — e menos eufórico.
O
Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,75%
para 14,50% ao ano, no segundo corte consecutivo do atual ciclo. A decisão
foi unânime e veio acompanhada de um discurso de cautela. O próprio Copom
afirmou que o cenário exige serenidade, especialmente diante das incertezas
externas, dos riscos geopolíticos e da necessidade de conduzir a inflação para
a meta.
Ou
seja: não se trata de uma decisão tomada em ambiente plenamente confortável. A
política monetária brasileira continua fortemente restritiva. Mesmo com o
corte, os juros permanecem em patamar elevado, o que indica que o Banco Central
não está propriamente “acelerando” a economia, mas apenas retirando uma pequena
fração do peso que vinha impondo sobre ela.
O
dado que mais recomenda prudência é a inflação. Segundo a Reuters, o Banco
Central elevou sua projeção de inflação para 4,6% em 2026, ainda acima
do centro da meta de 3%. Além disso, a inflação em 12 meses chegou a 4,37%,
pressionada por itens como transporte e alimentos. O Boletim Focus, por sua
vez, mostrou que o mercado projetava inflação de 4,86% para 2026, além
de crescimento do PIB em torno de 1,85% e Selic de 13% ao ano no
fim do período.
Portanto,
a pergunta é legítima: se a inflação ainda preocupa, se o cenário externo
continua incerto e se o próprio Banco Central evita qualquer sinal de
relaxamento excessivo, por que cortar novamente?
A
resposta técnica existe. A Selic estava em nível muito alto, próximo dos
maiores patamares das últimas décadas, e o custo do dinheiro já vinha
pressionando famílias, empresas e crédito. Uma redução pequena, de apenas 0,25
ponto percentual, pode ser defendida como ajuste gradual, sem abandono da
política de controle inflacionário. Nesse sentido, o corte não é tecnicamente
indefensável.
Mas
também não convém ingenuidade.
Estamos
em ano eleitoral. E, em ano eleitoral, toda decisão econômica relevante passa a
ter uma segunda vida: a vida da narrativa. O corte de juros pode ser pequeno no
comunicado do Banco Central, mas dificilmente será pequeno no discurso
político. Juros em queda produzem manchetes, alimentam falas oficiais, ajudam a
sustentar a ideia de melhora econômica e oferecem ao governo uma linguagem
simples para dialogar com o eleitor: “os juros começaram a cair”.
O
histórico brasileiro, porém, recomenda cuidado antes de transformar essa
percepção em acusação automática. Não há uma regra clara de que a Selic sempre
cai em anos eleitorais. Em 2002, por exemplo, a taxa estava em 18% no
mês anterior à eleição; em 2006, em 14,25%; em 2022, em 13,75%.
Em outros ciclos, houve manutenção ou movimentos condicionados por inflação,
câmbio, crise fiscal e expectativa de mercado.
Isso
mostra que o Banco Central nem sempre atua para aliviar o ambiente eleitoral.
Às vezes, faz o contrário. Ainda assim, uma coisa é a lógica técnica da
decisão; outra é o aproveitamento político que se faz dela.
E
é aqui que a análise precisa ser equilibrada. Não há base suficiente para
afirmar que a redução da Selic seja simplesmente uma manobra eleitoral. Mas
também seria ingênuo ignorar que, em ano de eleição, qualquer sinal de melhora
econômica será apropriado politicamente com intensidade muito maior do que seu
peso técnico real.
Para
o investidor conservador, especialmente aquele posicionado em produtos
pós-fixados, a notícia reduz um pouco a atratividade futura da renda fixa. Para
quem está em prefixados ou títulos indexados à inflação adquiridos em taxas
mais altas, pode haver ganho de marcação a mercado. Para empresas e
consumidores, o alívio existe, mas ainda é pequeno. Para o governo, porém, o
efeito simbólico pode ser grande.
A
redução da Selic para 14,50% não autoriza euforia. Ela indica uma transição
lenta, cautelosa e ainda cercada de riscos. O Brasil continua com juros
elevados, inflação acima do centro da meta e crescimento modesto. A economia
não entrou em terreno benigno; apenas recebeu um sinal tímido de alívio.
Por
isso, a leitura mais honesta talvez seja esta: o corte é tecnicamente
justificável pelo nível ainda muito restritivo da Selic, mas politicamente
conveniente demais para passar despercebido.
O
corte pode ser pequeno, mas o discurso político sustentado nele será enorme.
Vamos aguardar.

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