segunda-feira, 25 de maio de 2026

Eu tenho 60+. E daí?

Por Jânsen Leiros Jr.


A idade não encerra a potência de ninguém; muitas vezes, é justamente depois de muita estrada que a experiência, a coragem e a vontade de recomeçar encontram sua forma mais lúcida de continuar produzindo.

  

“Só há uma solução para que a velhice não se torne uma paródia da vida anterior: continuar perseguindo fins que deem sentido à existência.” — Simone de Beauvoir - (filósofa, escritora e ensaísta francesa; em sua reflexão sobre a velhice, defendeu que a continuidade do desejo, do trabalho intelectual, das causas e dos vínculos impede que a idade seja reduzida a encerramento).

“O homem não teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse buscado o impossível.” — Max Weber - (sociólogo, jurista e economista alemão; sua obra ajuda a compreender vocação, disciplina, ação histórica e a força de quem segue produzindo mesmo diante de estruturas sociais limitadoras).

 “Nem a vida de um indivíduo nem a história de uma sociedade podem ser compreendidas sem compreender ambas.” — C. Wright Mills - (sociólogo norte-americano; formulador da “imaginação sociológica”, mostrou que experiências pessoais também revelam estruturas sociais, o que ilumina diretamente o etarismo como problema que não é apenas individual, mas cultural e institucional).

 


Tenho lido e acompanhado muitas reflexões sobre profissionais 50+, 60+, maturidade, talento, atitude, experiência e oportunidades desperdiçadas.

E quanto mais penso no tema, mais me convenço de uma coisa: talvez o problema nunca tenha sido a idade de quem ainda quer produzir. Talvez o problema esteja na leitura pobre de quem acredita que vitalidade só mora na juventude.

Há uma ideia silenciosa, mas muito presente, de que depois de certa idade a pessoa passa a carregar mais passado do que futuro. Como se cabelo branco, barba branca, rugas, décadas de estrada ou um currículo mais longo fossem sinais de encerramento — e não de repertório.

Mas a vida real desmente isso o tempo todo.

Roberto Marinho tinha 60 anos quando inaugurou a TV Globo. Ray Kroc tinha 52 quando abriu a primeira franquia McDonald’s e começou a transformar uma operação local em um fenômeno global. Morgan Freeman, que hoje parece ter estado sempre no imaginário do cinema, só alcançou projeção mais ampla quando muitos já teriam sido tratados pelo mercado como “tarde demais”.

Ou seja: há começos que só são possíveis depois de muita estrada.

E isso precisa ser dito sem romantização ingênua. Não é que todo profissional maduro seja automaticamente melhor, mais sábio ou mais preparado. Idade, sozinha, não garante grandeza. Mas juventude, sozinha, também não garante inovação, velocidade ou capacidade de aprender.

O que faz diferença é atitude.

Há pessoas jovens que já envelheceram por dentro. E há pessoas com mais de 50 ou 60 anos que continuam estudando, criando, mudando, aprendendo, tentando, recomeçando, se expondo ao novo e aceitando o desconforto de não saber tudo.

Esse talvez seja o ponto mais importante: maturidade não precisa ser sinônimo de rigidez. Pode ser exatamente o contrário. Pode ser a fase em que a pessoa já não precisa provar tudo a todo instante, mas ainda tem muito a entregar. Já errou, já caiu, já recomeçou, já viu modas passarem, já viu certezas ruírem, já atravessou crises — e, justamente por isso, pode decidir com mais calma, ler cenários com mais profundidade e trabalhar com mais consciência.

Muito mais difícil e paralisante do que envelhecer é sentir o preconceito e o julgamento precipitado de que, se a cabeça ou a barba já é branca, não há mais o que entregar.

Isso mata oportunidades dos dois lados.

Mata no profissional, que muitas vezes começa a duvidar da própria potência. E mata nas empresas, que deixam de acessar gente com bagagem, compromisso, visão histórica, estabilidade emocional e disposição real de contribuir.

Eu mesmo sigo me reinventando. Não por vaidade. Não por negação da idade. Mas porque ainda tenho ideias, projetos, inquietações, vontade de aprender, necessidade de criar e disposição para enfrentar novos desafios.

A idade não me retirou do jogo. Em muitos aspectos, ela me deu mais consciência do jogo.

Talvez seja hora de pararmos de perguntar apenas quantos anos uma pessoa tem e começarmos a perguntar que tipo de energia ela ainda carrega. Que repertório construiu. Que disposição preserva. Que coragem ainda demonstra para mudar. Que contribuição pode entregar agora — não apesar da idade, mas também por causa dela.

Porque o tempo pode cansar o corpo em alguns dias, é verdade.

Mas também pode afiar a mente, aprofundar a visão, limpar vaidades, refinar escolhas e devolver propósito.

E enquanto houver vontade de crescer, aprender, criar e servir, ninguém deveria ser tratado como alguém cujo tempo já passou.

Afinal, eu tenho 60+.

E, sinceramente?

Ainda há muito chão pela frente.

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