Há guerras que
destroem cidades. Há guerras que devoram gerações. E há guerras que fazem algo
ainda mais perigoso: revelam a verdade escondida por trás das ilusões de uma
época.
A guerra na
Ucrânia, a sucessão de crises no Oriente Médio, a escalada envolvendo Israel,
Irã, Hezbollah e Hamas, a aproximação cada vez menos disfarçada entre Rússia,
China, Irã e Coreia do Norte — tudo isso não é apenas uma sequência de
conflitos regionais. É o retrato de uma ordem mundial em decomposição.
O problema não
é apenas que há guerras em curso. O problema é que essas guerras estão
funcionando como um exame de imagem da decadência estratégica do Ocidente. E o
diagnóstico é desconfortável: o bloco que se imaginava mais coeso, mais
preparado, mais rico, mais armado e mais capaz de impor limites aos agressores
revelou-se mais lento, mais dividido, mais dependente e menos disposto ao
sacrifício do que seus próprios discursos faziam supor.
Durante
décadas, o mundo democrático se acostumou a falar de liberdade como se ela
fosse autossustentável; de alianças como se elas fossem automáticas; de poder
militar como se ele existisse apenas porque constava nos orçamentos; de
superioridade moral como se ela substituísse munição, indústria, logística,
vontade política e capacidade de suportar perdas. A Ucrânia e o Oriente Médio
estão desmontando essa fantasia.
A guerra como revelação
A invasão russa
da Ucrânia, em 2022, deveria ter servido como choque definitivo. Em alguma
medida, serviu. A OTAN registra que os aliados europeus e o Canadá aumentaram
significativamente seus gastos de defesa, com avanço expressivo em 2025 e novo
compromisso de elevação do investimento militar aprovado pelos países da
aliança. O relatório anual do secretário-geral da OTAN informa que, após a
Cúpula de Haia, os aliados assumiram o compromisso de elevar o investimento em
defesa para 5% do PIB, e que a Europa e o Canadá deram um passo relevante ao
ampliar seus gastos em relação a 2024.
Mas o próprio fato de esse movimento ter ocorrido apenas depois de uma guerra brutal às portas da Europa já revela o tamanho do autoengano anterior. A Europa não despertou porque planejou prudentemente o futuro. Despertou porque a realidade arrombou a porta.
O aumento dos
gastos, embora necessário, não resolve imediatamente o problema central:
dinheiro autorizado não vira prontidão militar da noite para o dia. Não se
fabricam sistemas antiaéreos, mísseis, drones, munições de artilharia,
blindados, navios, satélites, infraestrutura logística e pessoal treinado com a
velocidade de um comunicado oficial. A própria União Europeia apresentou, em
março de 2025, o plano Readiness 2030, acompanhado do chamado ReArm Europe
Plan, justamente para acelerar investimentos e reconstruir capacidades de
defesa até o fim da década.
Ou seja: a Europa está correndo. Mas está correndo porque percebeu tarde demais que havia caminhado lentamente por tempo demais.
A questão da
munição é emblemática. A Reuters informou que a iniciativa tcheca de
fornecimento de munições para a Ucrânia se tornou peça importante do esforço de
abastecimento de Kyiv, inclusive com projeção de entregar 1,8 milhão de
projéteis de artilharia em 2025, o que representaria parcela expressiva do
total enviado à Ucrânia. A mesma reportagem registrou, porém, dificuldades de
financiamento, indicando que, mesmo quando há coordenação, a sustentação
material da guerra continua sendo um desafio.
Isso é politicamente explosivo. Demonstra que o Ocidente continua tendo imenso poder econômico, tecnológico e militar, mas nem sempre consegue transformar esse poder em resposta rápida, coerente e sustentada. O arsenal existe em tese; a prontidão falta na prática. O discurso é firme; a linha de produção é lenta. A indignação moral é imediata; a capacidade de reposição é demorada.
A dependência americana e a fadiga dos aliados
Durante boa
parte do pós-guerra, a Europa pôde se dar ao luxo de terceirizar sua segurança
estratégica para os Estados Unidos. A proteção americana virou uma espécie de
atmosfera: todos respiravam, poucos pensavam nela.
A discussão dentro da OTAN sobre metas mais altas de investimento militar não é detalhe contábil. É confissão estratégica. Se 2% do PIB bastassem, não se falaria em 5%. Se a estrutura estivesse adequada, não haveria plano europeu de rearmamento. Se a prontidão fosse satisfatória, não se falaria em “Readiness 2030”. A linguagem burocrática suaviza, mas o conteúdo é grave: a Europa está tentando recuperar, em poucos anos, décadas de negligência defensiva.
E há outro
elemento ainda mais delicado: o protagonismo americano já não é o mesmo, nem em
capacidade política interna, nem em disposição de carregar indefinidamente os
custos da ordem internacional. Washington continua sendo indispensável, mas já
não quer ser tratado como garantidor automático de aliados que demoram a agir,
gastam tarde e divergem quando a hora exige unidade.
Isso não
significa que os Estados Unidos desaparecerão do tabuleiro. Significa algo
talvez mais perigoso: os adversários podem começar a apostar que a resposta
americana será mais seletiva, mais lenta, mais politicamente condicionada e
mais contestada internamente.
É nesse ponto
que o risco de hecatombe cresce. Guerras mundiais raramente começam porque um
lado tem certeza absoluta de que vencerá. Muitas vezes começam porque alguém
calcula mal a disposição do outro lado de reagir. A fraqueza percebida pode ser
tão perigosa quanto a fraqueza real.
Os regimes autoritários aprenderam a ler nossas hesitações
Enquanto o
Ocidente debate, posterga, condiciona, vota, revota, anuncia, reconsidera e
mede o custo eleitoral de cada decisão, os regimes revisionistas observam. E
aprendem.
A Rússia
aprendeu que pode absorver sanções mais do que muitos imaginavam. Aprendeu que
guerra prolongada exige brutalidade, mobilização industrial, repressão interna
e alianças alternativas. Aprendeu que a fadiga ocidental é uma variável
militar. Se Kyiv depende de ciclos políticos em Washington, Bruxelas, Berlim,
Paris e Londres, Moscou calcula o tempo como arma.
A China
aprendeu que a guerra na Ucrânia testa não apenas a Rússia, mas a capacidade
ocidental de sustentar um aliado sob pressão prolongada. Pequim observa
munição, sanções, opinião pública, coesão parlamentar, estoques, capacidade
industrial, dependência energética, vulnerabilidade tecnológica e velocidade
decisória. Taiwan, o Mar do Sul da China e a arquitetura do Indo-Pacífico estão
sendo medidos também a partir do que se vê na Europa.
O Irã aprendeu
que pode operar por camadas: proxies, milícias, pressão regional, chantagem
energética, drones, mísseis, retórica nuclear, ataques indiretos e guerra de
desgaste. A escalada entre Israel e Irã, em 2025, com ataques de ambos os
lados, civis mortos e feridos e temor de conflito regional mais amplo, mostrou
como a instabilidade do Oriente Médio pode rapidamente ultrapassar fronteiras
nacionais.
A Coreia do Norte aprendeu que seu isolamento pode ser convertido em utilidade estratégica. Ao se aproximar de Moscou e manter laços com Pequim, Pyongyang deixa de ser apenas um problema regional e passa a compor uma rede de regimes hostis à ordem liderada pelos Estados Unidos. A Associated Press noticiou recentemente que Kim Jong Un manifestou apoio à busca chinesa por uma ordem “multipolar” e reforçou, em encontro com o chanceler chinês, a importância de aprofundar relações com Pequim em meio às tensões globais.
Esse é o ponto essencial: os adversários do Ocidente não precisam ser plenamente unidos em tudo. Basta que sejam suficientemente convergentes contra a ordem existente. Não precisam amar uns aos outros. Basta que compartilhem um objetivo negativo: reduzir a influência americana, desgastar alianças ocidentais, enfraquecer normas internacionais e testar os limites da resposta democrática.
A Reuters já
havia registrado que a Rússia assinou um tratado de parceria estratégica com o
Irã, depois de acordos semelhantes com China e Coreia do Norte, e observou que
Moscou tem usado essas relações para amortecer o impacto das sanções ocidentais
e impulsionar seu esforço de guerra na Ucrânia.
Portanto, o chamado “eixo das ditaduras” talvez não seja uma aliança formal nos moldes da OTAN. Mas isso não o torna menos perigoso. Pelo contrário: sua flexibilidade pode torná-lo mais difícil de conter. Ele funciona por conveniência, oportunismo, ressentimento geopolítico, comércio de tecnologia, energia, armas, drones, munições, sanções burladas, diplomacia paralela e apoio mútuo em organismos internacionais.
O Ocidente confundiu riqueza com poder
Uma das ilusões
mais perigosas da nossa época foi imaginar que sociedades ricas são
automaticamente sociedades fortes. Não são.
Riqueza só vira
poder quando há coesão social, capacidade industrial, visão estratégica,
liderança política, disposição de pagar custos e clareza moral sobre o que
precisa ser defendido. Sem isso, riqueza vira conforto vulnerável. Vira consumo
sem resiliência. Vira orçamento sem prontidão. Vira tecnologia sem coragem.
O SIPRI
registrou que o gasto militar global chegou a US$ 2,718 trilhões em 2024, um
aumento real de 9,4% em relação a 2023, a maior alta anual desde o fim da
Guerra Fria. O crescimento foi especialmente intenso na Europa e no Oriente
Médio, exatamente as regiões mais tensionadas pelos conflitos recentes.
Esses números revelam uma corrida. Mas corridas armamentistas não são vencidas apenas por quem gasta mais. São vencidas por quem consegue transformar gasto em estoque, estoque em prontidão, prontidão em dissuasão e dissuasão em credibilidade.
A grande
pergunta é: o Ocidente ainda é crível?
Crível não no
sentido moral — porque, apesar de seus erros, hipocrisias e contradições, as
democracias liberais ainda oferecem um horizonte humano superior ao dos regimes
autoritários. A pergunta é outra: o Ocidente ainda é crível como força de
contenção? Ainda consegue convencer seus adversários de que certas linhas não
podem ser cruzadas? Ainda consegue fazer com que Moscou, Pequim, Teerã e
Pyongyang acreditem que o preço da agressão será alto demais?
Essa é a
pergunta que paira sobre Kyiv. Sobre Tel Aviv. Sobre Taipei. Sobre Varsóvia.
Sobre os Bálcãs. Sobre o Golfo. Sobre o Mar Vermelho. Sobre o Ártico. Sobre o
Indo-Pacífico.
A crise moral
das democracias cansadas
Existe, porém,
uma dimensão ainda mais profunda: a crise de vontade.
As democracias
contemporâneas se tornaram sociedades excelentes em reivindicar direitos, mas
cada vez menos preparadas para sustentar deveres coletivos. Querem segurança
sem custo, liberdade sem disciplina, prosperidade sem sacrifício, soberania sem
fronteiras claras, influência global sem poder militar proporcional, paz sem
dissuasão e valores sem consequência.
O adversário autoritário olha para isso e enxerga oportunidade.
Regimes como
Rússia, China, Irã e Coreia do Norte não precisam convencer suas populações por
meio do mesmo grau de debate público que as democracias exigem. Podem reprimir,
censurar, mobilizar, mentir, sacrificar vidas e prolongar conflitos com custos
humanos que seriam politicamente explosivos em sociedades abertas. Isso não os
torna melhores. Torna-os perigosos de outra forma. São sistemas com menos
freios morais internos e maior capacidade de operar no longo prazo sob coerção.
É por isso que
a desunião ocidental importa tanto. Quando democracias discutem, isso é
virtude. Mas quando democracias se paralisam diante de ameaças existenciais, a
virtude vira vulnerabilidade. O debate é sinal de saúde; a incapacidade de
decidir é sintoma de doença.
A diferença é
crucial.
O Ocidente não
está fraco porque debate. Está fraco quando debate para não decidir. Está fraco
quando transforma prudência em desculpa, complexidade em paralisia e medo de
escalada em aceitação gradual da agressão alheia.
A Ucrânia como
laboratório da nova guerra
A guerra na
Ucrânia deixou claro que a nova guerra não é apenas territorial. É industrial,
informacional, tecnológica, psicológica, energética, diplomática e demográfica.
Drones baratos
desafiam sistemas caríssimos. Artilharia volta ao centro do campo de batalha.
Guerra eletrônica decide movimentos. Satélites privados tornam-se ativos
estratégicos. Redes sociais viram campo de operação psicológica. Sanções
precisam ser globais para funcionar plenamente. Munição, não retórica, sustenta
resistência.
A Ucrânia
provou coragem. Mas também provou a insuficiência do arsenal ocidental
disponível para uma guerra prolongada de alta intensidade. O fato de aliados
precisarem criar mecanismos específicos para comprar munição em mercados
globais já demonstra que a capacidade produtiva existente não estava
dimensionada para o tipo de guerra que voltou ao continente europeu.
E aqui está o alerta maior: se a guerra na Ucrânia já tensiona estoques, orçamentos e consensos políticos, o que aconteceria em caso de crise simultânea em Taiwan, escalada no Golfo, nova ofensiva russa contra outro ponto da Europa e colapso de rotas marítimas estratégicas?
Essa é a palavra: hecatombe.
Não
necessariamente como explosão única. Mas como colapso em cadeia. Um mundo onde
várias crises se somam, drenam recursos, confundem prioridades, dispersam
atenção, dividem alianças e encorajam novos agressores.
O Oriente Médio
como multiplicador de instabilidade
O Oriente Médio
nunca foi apenas regional. Ele é energético, religioso, militar, simbólico e
geopolítico. Quando o Oriente Médio arde, o mundo sente no petróleo, nas
bolsas, nas cadeias logísticas, nas migrações, no terrorismo, nas alianças e
nas urnas.
A escalada
entre Israel e Irã, somada à atuação de Hezbollah, Hamas e outros grupos,
revela uma arquitetura de guerra indireta que desafia a lógica tradicional de
contenção. A Reuters registrou, em junho de 2025, que Israel lançou ataques de
grande escala contra instalações nucleares e fábricas de mísseis iranianas,
enquanto os mercados reagiram com queda nas bolsas e alta expressiva do
petróleo.
Mesmo quando há cessar-fogo, a região não volta exatamente à paz. Volta a uma espécie de intervalo armado. Gaza continua devastada. O Líbano segue vulnerável. Israel permanece em estado de alerta. O Irã opera entre recuo tático e ameaça estratégica. As monarquias do Golfo calculam riscos. Os Estados Unidos tentam administrar várias frentes ao mesmo tempo.
E os
adversários observam novamente: quanto custa distrair Washington? Quanto custa
dividir a atenção ocidental? Quanto custa forçar os Estados Unidos a escolher
entre Europa, Oriente Médio e Indo-Pacífico?
Talvez a maior
ameaça contemporânea não seja uma guerra isolada, mas a simultaneidade. O
Ocidente pode vencer uma crise. Pode administrar duas. Mas e se quatro ou cinco
crises forem aceleradas ao mesmo tempo por atores diferentes, ainda que
informalmente coordenados?
A ordem internacional está sendo testada por saturação
A palavra-chave é saturação. Saturar estoques. Saturar orçamentos. Saturar parlamentos. Saturar a atenção pública. Saturar a diplomacia. Saturar a paciência dos eleitores. Saturar a capacidade americana de estar em todos os teatros. Saturar a coesão europeia. Saturar a narrativa moral das democracias.
É assim que uma
ordem mundial pode ruir sem uma declaração formal de guerra mundial. Não por um
único golpe, mas por fadiga sistêmica. Não por uma batalha final, mas por uma
sequência de desafios que torna cada resposta mais lenta, mais cara e mais
politicamente contestada.
A Avaliação
Anual de Ameaças da Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos, publicada em
2025, descreveu um ambiente no qual a cooperação crescente entre China, Rússia,
Irã e Coreia do Norte amplia riscos e pode fazer com que hostilidades
envolvendo um desses atores acabem atraindo outros.
Essa leitura converge com o que os fatos mostram: não estamos diante de incidentes desconectados. Estamos diante de uma disputa sobre quem escreverá as regras do próximo mundo.
O erro fatal:
achar que a paz é o estado natural das coisas
A geração
ocidental formada depois da Guerra Fria foi educada numa ilusão: a de que a paz
liberal era o destino normal da humanidade. Guerras continuariam existindo, mas
seriam periféricas. Ditaduras sobreviveriam, mas estariam na defensiva. A
globalização tornaria grandes conflitos irracionais. O comércio domesticaria
adversários. A interdependência substituiria a dissuasão.
Essa tese
morreu em várias etapas: na Geórgia, na Crimeia, na Síria, em Hong Kong, em
Kabul, na Ucrânia, em Gaza, no Mar Vermelho, no Líbano, no Irã, nas ameaças a
Taiwan. Morreu também nas fábricas de munição que não produziam o suficiente,
nos arsenais que estavam baixos, nos eleitores cansados, nos parlamentos
divididos, nas redes sociais manipuladas e nas lideranças incapazes de explicar
à população que liberdade custa caro.
A paz não é o
estado natural das coisas. A paz é uma construção moral, política, militar e
espiritual. Ela precisa ser sustentada. E, quando não é sustentada, não
desaparece de uma vez. Primeiro, ela perde credibilidade. Depois, perde
fronteiras. Depois, perde defensores. Por fim, perde a guerra antes mesmo de
admitir que entrou nela.
O eixo autoritário aposta na decadência da nossa paciência
O eixo
autoritário não precisa derrotar o Ocidente em uma batalha convencional direta.
Basta convencê-lo de que resistir é caro demais.
Essa é a
lógica: tornar cada defesa moralmente confusa, financeiramente pesada,
eleitoralmente impopular, militarmente arriscada e diplomaticamente
interminável. A Ucrânia vira “guerra distante”. Taiwan vira “problema chinês”.
Israel vira “complicação insolúvel”. O Irã vira “risco de escalada”. O Mar
Vermelho vira “custo logístico”. A OTAN vira “fardo americano”. A defesa vira
“gasto socialmente insensível”. A soberania vira “tema antiquado”. A liberdade
vira “retórica ocidental”.
Quando essa
narrativa vence, os tanques nem precisam chegar. A capitulação começa antes,
dentro da linguagem.
Por isso, a
guerra informacional é central. O objetivo não é apenas mentir. É cansar. É
produzir cinismo. É fazer o cidadão democrático acreditar que todos são iguais,
que nada vale a pena, que toda resistência é hipocrisia, que toda aliança é
interesseira, que toda defesa é provocação, que toda prudência é covardia e que
toda coragem é loucura.
É nesse
ambiente que regimes autoritários avançam: não porque sejam invencíveis, mas
porque apostam que as democracias perderam a confiança em si mesmas.
O que ainda
pode evitar a hecatombe
Apesar de tudo,
o desfecho dantesco não é inevitável. Mas evitá-lo exige abandonar ilusões.
Primeiro, o
Ocidente precisa reconstruir sua base industrial de defesa. Não basta anunciar
valores. É preciso produzir munição, drones, sistemas antiaéreos, guerra
eletrônica, navios, satélites, semicondutores estratégicos, energia resiliente
e infraestrutura protegida.
Segundo,
precisa reordenar prioridades. Defesa não é luxo de militarista. É pré-condição
da liberdade. Sem segurança, não há política social, democracia, direitos
humanos, universidades livres, imprensa independente, culto religioso livre ou
mercado estável.
Terceiro,
precisa restaurar a dissuasão. A melhor guerra é aquela que o agressor desiste
de começar porque acredita que o custo será insuportável. Para isso, a resposta
ocidental precisa ser previsível na firmeza, ainda que prudente na forma.
Quarto, precisa
compreender que alianças não sobrevivem apenas por documentos. Sobrevivem por
confiança. E confiança exige contribuição real, divisão de fardos e clareza
sobre ameaças comuns.
Quinto, precisa
vencer a guerra moral dentro de casa. As democracias precisam voltar a explicar
por que merecem ser defendidas. Não como sistemas perfeitos, mas como os únicos
em que ainda é possível corrigir erros sem campos de prisioneiros, trocar governos
sem tanques nas ruas, criticar líderes sem desaparecer e buscar justiça sem
pedir permissão ao partido único.
A palavra é mesmo hecatombe
Sim, a palavra
é dura. Mas talvez seja exatamente por isso que ela seja necessária.
Hecatombe não é
apenas o desastre depois que ele acontece. É também o nome do desastre quando
ainda pode ser visto no horizonte e, mesmo assim, é tratado como exagero por
aqueles que confundem normalidade com permanência.
Estamos
brincando com um potencial destrutivo que nossas categorias políticas habituais
já não conseguem conter. As guerras na Europa e no Oriente Médio revelaram algo
pior do que a existência dos conflitos: revelaram a vulnerabilidade dos que
deveriam contê-los. Revelaram que os “mocinhos” estão menos unidos, menos
preparados e menos decididos do que imaginavam. E revelaram que os “bandidos”
estão mais capazes, mais pacientes, mais articulados e mais atentos às nossas
fraquezas do que gostaríamos de admitir.
O mundo não
está apenas em crise. Está em transição. E transições internacionais costumam
ser perigosas quando uma ordem antiga perde autoridade antes que uma nova ordem
estável exista.
O eixo
autoritário percebeu a rachadura. A Europa tenta correr atrás do prejuízo. Os
Estados Unidos já dão sinais de seletividade e cansaço. O Oriente Médio arde em
camadas. A Ucrânia sangra em nome de uma fronteira que é também simbólica. A
China observa. A Rússia insiste. O Irã testa. A Coreia do Norte se oferece como
peça útil. E as democracias discutem se ainda vale a pena pagar o preço da
própria sobrevivência.
Se não houver lucidez, coragem e reconstrução estratégica, a história poderá registrar que a hecatombe não começou quando os mísseis caíram, mas quando os homens livres foram avisados — e preferiram chamar o aviso de alarmismo.
Referências Utilizadas
OTAN — Relatório Anual do
Secretário-Geral / investimento em defesa
Dados sobre o aumento dos gastos
de defesa dos aliados europeus e do Canadá, além do compromisso de elevação do
investimento militar dentro da aliança.
OTAN
Comissão Europeia — White
Paper for European Defence / Readiness 2030
Documento que apresenta o plano
europeu de prontidão e rearmamento, reconhecendo a necessidade de acelerar
investimentos em capacidades de defesa.
Defence Industry and Space
Reuters — Iniciativa tcheca de
munição para a Ucrânia
Reportagem sobre o papel da
iniciativa tcheca no fornecimento de munições para Kyiv e sobre dificuldades de
financiamento, ilustrando gargalos industriais e logísticos do apoio ocidental.
Reuters
Reuters — Tratados
estratégicos da Rússia com Irã, Coreia do Norte e China
Reportagem sobre a aproximação
estratégica de Moscou com regimes adversários dos Estados Unidos e seu uso para
amortecer sanções e sustentar o esforço de guerra russo.
Reuters
SIPRI — Tendências dos gastos
militares globais em 2024
Dados sobre o gasto militar
mundial de US$ 2,718 trilhões em 2024 e aumento real de 9,4%, o maior avanço
anual desde o fim da Guerra Fria.
SIPRI
Reuters — Escalada Israel-Irã
em junho de 2025
Reportagem sobre ataques entre
Israel e Irã, vítimas civis e temor de ampliação do conflito regional.
Reuters
Reuters — Ataques israelenses
ao Irã e reação dos mercados
Reportagens sobre ataques
israelenses a instalações iranianas, queda das bolsas e alta do petróleo,
demonstrando o impacto global imediato da instabilidade no Oriente Médio.
Reuters · 1
Associated Press — China e
Coreia do Norte / ordem multipolar
Notícia sobre o apoio de Kim Jong
Un à agenda chinesa de uma ordem multipolar e o aprofundamento das relações
entre Pyongyang e Pequim.
AP News
Comunidade de Inteligência dos
Estados Unidos — Annual Threat Assessment 2025
Relatório que descreve a
cooperação crescente entre China, Rússia, Irã e Coreia do Norte como fator de
ampliação dos riscos estratégicos para os Estados Unidos e seus aliados.
DN










