Por Jânsen Leiros Jr.
Quando a pressa vira pensamento, a opinião vira reflexo e a profundidade passa a parecer uma forma de resistência.
“O meio é a
mensagem.” — Marshall McLuhan (teórico
canadense da comunicação, professor e autor de Understanding Media, obra
fundamental sobre os efeitos dos meios de comunicação na percepção e na vida
social)
“A massa esmaga sob si tudo
o que é diferente, tudo o que é excelente, individual, qualificado e seleto.
Quem não é como todo mundo, quem não pensa como todo mundo, corre o risco de
ser eliminado.” — José Ortega y Gasset
(filósofo e ensaísta espanhol, autor de A Rebelião das Massas)
“Foi pura irreflexão — algo que não é de modo algum idêntico à estupidez — que o predispôs a se tornar um dos maiores criminosos daquele período.” — Hannah Arendt (filósofa política alemã, autora de Eichmann em Jerusalém e formuladora da ideia da banalidade do mal)
Há um
tipo de pensamento contemporâneo que já não pensa. Apenas reage.
Ele não
contempla, não investiga, não suporta a demora de uma pergunta difícil. Precisa
de frases curtas, certezas rápidas, inimigos fáceis e slogans prontos para
vestir como se fossem convicções.
É o
pensamento em modo rolagem infinita.
Uma ideia
aparece, outra interrompe, outra substitui, outra ridiculariza, outra cancela,
outra viraliza. E, no fim, quase ninguém sabe exatamente o que pensa. Sabe
apenas o que deve parecer pensar.
Vivemos
cercados por pessoas que confundem opinião com lucidez, repetição com
consciência, engajamento com profundidade. Gente que não amadurece uma ideia:
apenas compartilha. Não examina um argumento: apenas escolhe um lado. Não busca
a verdade: busca pertencimento.
É uma
forma fútil de viver. Mas não uma futilidade inocente. É uma futilidade
abusiva, porque exige que todos se submetam à mesma pressa, à mesma
superficialidade, à mesma preguiça mental travestida de modernidade.
Quem
pensa devagar passou a parecer estranho. Quem pondera virou suspeito. Quem
hesita antes de julgar é acusado de fraqueza. Quem tenta compreender antes de
condenar é tratado como cúmplice.
E assim
vai se formando uma geração de consciências terceirizadas: pessoas que não
pensam, apenas obedecem ao pensamento dominante do dia. Hoje repetem uma
indignação; amanhã repetem o seu oposto, se o algoritmo mandar.
Talvez o
maior problema do nosso tempo não seja a falta de opinião. É o excesso de
opiniões sem pensamento.
Porque
uma sociedade que desaprende a pensar em profundidade se torna fácil de
conduzir. Basta oferecer uma frase de efeito, uma imagem forte, uma emoção
fabricada, e multidões inteiras passam a acreditar que chegaram a uma conclusão
— quando, na verdade, apenas foram empurradas até ela.
O
pensamento raso não é apenas limitado. Ele é perigoso.
É
perigoso porque dá às pessoas a sensação de inteligência sem exigir delas o
trabalho da reflexão. Dá a impressão de participação sem compromisso com a
verdade. Dá a emoção de estar do lado certo sem a responsabilidade de examinar
se esse lado existe de fato, se é justo, se é honesto, se é humano.
E talvez
seja isso que torne esse fenômeno tão revoltante: não se trata apenas de
ignorância. Trata-se de uma ignorância convencida de si mesma. Uma
superficialidade vaidosa, barulhenta, satisfeita com a própria incapacidade de
aprofundar qualquer coisa.
A pressa
virou método. A indignação virou identidade. A frase pronta virou argumento. A
repetição virou prova. O pertencimento virou consciência.
Mas
pensar exige demora.
Exige
silêncio. Exige desconforto. Exige a coragem de não pertencer imediatamente a
nenhum rebanho. Exige suportar perguntas que ainda não têm resposta. Exige
desconfiar até das próprias certezas, sobretudo daquelas que chegam prontas
demais, emocionais demais, convenientes demais.
Talvez
por isso a profundidade incomode tanto.
Ela não
cabe no corte de quinze segundos.
Não
obedece à pressa do feed.
Não dança
conforme a música da massa.
Não se
ajoelha diante da opinião mais repetida.
A
profundidade é quase um ato de resistência.
Resistir,
hoje, talvez comece exatamente por isso: recuperar o direito de pensar antes de
repetir. De desconfiar antes de aderir. De silenciar antes de opinar. De
compreender antes de condenar. De aceitar que nem toda pergunta precisa virar
postagem, nem toda dor precisa virar performance, nem toda convicção precisa
ser gritada para parecer verdadeira.
Há uma
diferença imensa entre ter voz e ter pensamento.
A voz
pode ecoar o que recebeu. O pensamento precisa atravessar o que recebeu. A voz
pode ser treinada pela multidão. O pensamento precisa ser forjado na solidão. A
voz pode viralizar. O pensamento precisa amadurecer.
E talvez
seja isso que esteja faltando: maturidade interior.
Não
apenas informação. Não apenas acesso. Não apenas repertório acumulado em frases
soltas, vídeos rápidos e opiniões de ocasião. Falta espessura. Falta
permanência. Falta a disposição de atravessar a superfície das coisas até
encontrar alguma verdade que não dependa do aplauso imediato.
Num mundo
satisfeito em virar espuma, pensar com profundidade é recusar a dissolução.
É dizer
não à vida fútil disfarçada de atualização permanente.
É dizer
não à consciência terceirizada.
É dizer
não ao algoritmo como pastor da alma.
É dizer
não ao pensamento que já nasce querendo curtida.
Porque
viver sem profundidade pode parecer leve.
Mas, no
fundo, é apenas outra forma de desaparecer.
