Por Jânsen Leiros Jr.
A idade não encerra a potência de ninguém; muitas
vezes, é justamente depois de muita estrada que a experiência, a coragem e a
vontade de recomeçar encontram sua forma mais lúcida de continuar produzindo.
“Só há uma
solução para que a velhice não se torne uma paródia da vida anterior: continuar
perseguindo fins que deem sentido à existência.” — Simone de Beauvoir - (filósofa, escritora e ensaísta
francesa; em sua reflexão sobre a velhice, defendeu que a continuidade do
desejo, do trabalho intelectual, das causas e dos vínculos impede que a idade
seja reduzida a encerramento).
“O homem não
teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse buscado o
impossível.” — Max Weber - (sociólogo,
jurista e economista alemão; sua obra ajuda a compreender vocação, disciplina,
ação histórica e a força de quem segue produzindo mesmo diante de estruturas
sociais limitadoras).
“Nem a vida de um indivíduo nem a história de
uma sociedade podem ser compreendidas sem compreender ambas.” — C. Wright Mills - (sociólogo norte-americano; formulador da
“imaginação sociológica”, mostrou que experiências pessoais também revelam
estruturas sociais, o que ilumina diretamente o etarismo como problema que não
é apenas individual, mas cultural e institucional).
Tenho
lido e acompanhado muitas reflexões sobre profissionais 50+, 60+, maturidade,
talento, atitude, experiência e oportunidades desperdiçadas.
E quanto
mais penso no tema, mais me convenço de uma coisa: talvez o problema nunca
tenha sido a idade de quem ainda quer produzir. Talvez o problema esteja na
leitura pobre de quem acredita que vitalidade só mora na juventude.
Há uma
ideia silenciosa, mas muito presente, de que depois de certa idade a pessoa
passa a carregar mais passado do que futuro. Como se cabelo branco, barba
branca, rugas, décadas de estrada ou um currículo mais longo fossem sinais de
encerramento — e não de repertório.
Mas a
vida real desmente isso o tempo todo.
Roberto
Marinho tinha 60 anos quando inaugurou a TV Globo. Ray Kroc tinha 52 quando
abriu a primeira franquia McDonald’s e começou a transformar uma operação local
em um fenômeno global. Morgan Freeman, que hoje parece ter estado sempre no
imaginário do cinema, só alcançou projeção mais ampla quando muitos já teriam
sido tratados pelo mercado como “tarde demais”.
Ou seja:
há começos que só são possíveis depois de muita estrada.
E isso
precisa ser dito sem romantização ingênua. Não é que todo profissional maduro
seja automaticamente melhor, mais sábio ou mais preparado. Idade, sozinha, não
garante grandeza. Mas juventude, sozinha, também não garante inovação,
velocidade ou capacidade de aprender.
O que faz
diferença é atitude.
Há
pessoas jovens que já envelheceram por dentro. E há pessoas com mais de 50 ou
60 anos que continuam estudando, criando, mudando, aprendendo, tentando,
recomeçando, se expondo ao novo e aceitando o desconforto de não saber tudo.
Esse
talvez seja o ponto mais importante: maturidade não precisa ser sinônimo de
rigidez. Pode ser exatamente o contrário. Pode ser a fase em que a pessoa já
não precisa provar tudo a todo instante, mas ainda tem muito a entregar. Já
errou, já caiu, já recomeçou, já viu modas passarem, já viu certezas ruírem, já
atravessou crises — e, justamente por isso, pode decidir com mais calma, ler
cenários com mais profundidade e trabalhar com mais consciência.
Muito
mais difícil e paralisante do que envelhecer é sentir o preconceito e o
julgamento precipitado de que, se a cabeça ou a barba já é branca, não há mais
o que entregar.
Isso mata
oportunidades dos dois lados.
Mata no
profissional, que muitas vezes começa a duvidar da própria potência. E mata nas
empresas, que deixam de acessar gente com bagagem, compromisso, visão
histórica, estabilidade emocional e disposição real de contribuir.
Eu mesmo
sigo me reinventando. Não por vaidade. Não por negação da idade. Mas porque
ainda tenho ideias, projetos, inquietações, vontade de aprender, necessidade de
criar e disposição para enfrentar novos desafios.
A idade
não me retirou do jogo. Em muitos aspectos, ela me deu mais consciência do
jogo.
Talvez
seja hora de pararmos de perguntar apenas quantos anos uma pessoa tem e
começarmos a perguntar que tipo de energia ela ainda carrega. Que repertório
construiu. Que disposição preserva. Que coragem ainda demonstra para mudar. Que
contribuição pode entregar agora — não apesar da idade, mas também por causa
dela.
Porque o
tempo pode cansar o corpo em alguns dias, é verdade.
Mas
também pode afiar a mente, aprofundar a visão, limpar vaidades, refinar
escolhas e devolver propósito.
E
enquanto houver vontade de crescer, aprender, criar e servir, ninguém deveria
ser tratado como alguém cujo tempo já passou.
Afinal,
eu tenho 60+.
E,
sinceramente?
Ainda há
muito chão pela frente.
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