O
avanço das fraudes no Brasil não é apenas reflexo de falhas institucionais ou
tecnológicas. É o sintoma de uma crise ética profunda, onde o “se dar bem”
substituiu o caráter e a vantagem passou a valer mais do que a retidão.
Há uma
tentação recorrente — quase automática — de explicar o crescimento exponencial
de fraudes, golpes e maracutaias no Brasil como fruto exclusivo de fatores
externos: avanço tecnológico, falta de educação digital, falhas regulatórias,
desigualdade social. Tudo isso existe. Tudo isso pesa. Mas nada disso explica o
essencial.
O que
está por trás da enxurrada de golpes que atravessa todas as camadas da
sociedade brasileira não é apenas oportunidade. É disposição moral.
📌 Aristóteles já
advertia, na Ética a Nicômaco, que o caráter não se forma pelo discurso, mas
pelo hábito — e que uma sociedade se revela não pelo que proclama, mas pelo que
pratica.
O
brasileiro médio — ou, ao menos, uma parcela cada vez mais visível e ruidosa —
não apenas se beneficia da fragilidade alheia quando pode; ele naturalizou o
benefício indevido como virtude. O “se dar bem” tornou-se critério de
inteligência. O atalho virou prova de esperteza. A ética passou a ser vista
como ingenuidade — quando não como burrice.
Quem
perde um bem “deu mole”.
Quem
cai num golpe “mereceu”.
Quem
não aproveita a oportunidade é “otário”.
Esse
vocabulário não é casual. Ele revela um ambiente moral corrompido, onde a
responsabilidade pelo mal é sempre deslocada para a vítima, e nunca para quem o
pratica.
📌 Agostinho de Hipona
já observava que uma sociedade sem justiça não passa de “um grande bando de
ladrões organizados”. Quando o erro se torna norma, a injustiça deixa de causar
escândalo.
Não se
trata mais do criminoso profissional, isolado à margem da sociedade. Trata-se
do malandro circunstancial, do ético intermitente, do cidadão que não rouba
porque teme a punição — ou porque não sabe como fazê-lo. Não porque seja
errado. Não por convicção. Mas por cálculo.
Quando
o freio é externo, o caráter já não existe.
E isso
explica por que o glamour do crime se espalha com tamanha facilidade. Só se
romantiza o bandido em sociedades que já perderam o apreço pela honra. Quando o
trabalho é desmoralizado, o mérito ridicularizado e a retidão tratada como
atraso, o criminoso passa a ocupar o lugar simbólico do vencedor. O honesto
vira o trouxa que “não soube jogar”.
📌 G. K. Chesterton
alertava que, quando os valores se invertem, o mundo não deixa de ter moral —
ele apenas passa a celebrar o que antes condenava.
A
frase “todo mundo rouba” não é apenas uma desculpa esfarrapada. É uma
cosmovisão. Ela absolve previamente qualquer desvio, dilui a culpa no coletivo
e transforma o erro em regra social. Onde todos roubam, ninguém é responsável.
Onde ninguém é responsável, nada precisa mudar.
É
comum que, diante desse diagnóstico, surja um movimento quase instintivo de
relativização: “não se pode generalizar”, “há fatores estruturais”, “é preciso
compreender o contexto”. Compreender, sim. Normalizar, não. Explicar demais,
nesse caso, vira uma forma elegante de desculpar o inaceitável.
📌 Simone Weil
lembrava que o mal não precisa de grandes justificativas: basta que as pessoas
parem de se importar. A indiferença moral é o solo mais fértil da injustiça.
O
crescimento das fraudes no Brasil não é apenas um problema de legislação ou
fiscalização. É o sintoma visível de uma crise ética profunda, que atravessa
instituições, relações cotidianas e imaginários coletivos. Uma crise em que o
valor supremo deixou de ser o ser e passou a ser o ter — custe o que custar,
doa a quem doer.
E aqui
está o ponto mais desconfortável: caráter não se compra, não se terceiriza, não
se impõe por decreto. Não se resolve com aplicativo, nem com campanha
publicitária. Caráter se forma — lentamente — ao longo de gerações, por
compromissos sociais sinceros, por exemplos consistentes, por limites claros
entre o aceitável e o inaceitável.
Esse
tecido, no Brasil, está esgarçado.
Ainda
existem pessoas íntegras. Muitas. Mas elas já não estruturam o imaginário
coletivo. Sobrevivem como exceção, não como referência. E quando a virtude
deixa de ser referência, o futuro vira disputa predatória: quem engana
primeiro, quem leva vantagem, quem não fica para trás.
Não
estamos diante apenas de uma crise institucional. Estamos diante de uma
falência moral em curso.
E
fingir que não é isso — dourando a pílula, suavizando o diagnóstico, deslocando
a responsabilidade — talvez seja parte do próprio problema.






