quinta-feira, 16 de abril de 2026

Quando as guerras revelam a decadência estratégica do Ocidente. Uma hecatombe anunciada

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Há guerras que destroem cidades. Há guerras que devoram gerações. E há guerras que fazem algo ainda mais perigoso: revelam a verdade escondida por trás das ilusões de uma época.

A guerra na Ucrânia, a sucessão de crises no Oriente Médio, a escalada envolvendo Israel, Irã, Hezbollah e Hamas, a aproximação cada vez menos disfarçada entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte — tudo isso não é apenas uma sequência de conflitos regionais. É o retrato de uma ordem mundial em decomposição.

O problema não é apenas que há guerras em curso. O problema é que essas guerras estão funcionando como um exame de imagem da decadência estratégica do Ocidente. E o diagnóstico é desconfortável: o bloco que se imaginava mais coeso, mais preparado, mais rico, mais armado e mais capaz de impor limites aos agressores revelou-se mais lento, mais dividido, mais dependente e menos disposto ao sacrifício do que seus próprios discursos faziam supor.

Durante décadas, o mundo democrático se acostumou a falar de liberdade como se ela fosse autossustentável; de alianças como se elas fossem automáticas; de poder militar como se ele existisse apenas porque constava nos orçamentos; de superioridade moral como se ela substituísse munição, indústria, logística, vontade política e capacidade de suportar perdas. A Ucrânia e o Oriente Médio estão desmontando essa fantasia.

A guerra como revelação

A invasão russa da Ucrânia, em 2022, deveria ter servido como choque definitivo. Em alguma medida, serviu. A OTAN registra que os aliados europeus e o Canadá aumentaram significativamente seus gastos de defesa, com avanço expressivo em 2025 e novo compromisso de elevação do investimento militar aprovado pelos países da aliança. O relatório anual do secretário-geral da OTAN informa que, após a Cúpula de Haia, os aliados assumiram o compromisso de elevar o investimento em defesa para 5% do PIB, e que a Europa e o Canadá deram um passo relevante ao ampliar seus gastos em relação a 2024. 

Mas o próprio fato de esse movimento ter ocorrido apenas depois de uma guerra brutal às portas da Europa já revela o tamanho do autoengano anterior. A Europa não despertou porque planejou prudentemente o futuro. Despertou porque a realidade arrombou a porta.

O aumento dos gastos, embora necessário, não resolve imediatamente o problema central: dinheiro autorizado não vira prontidão militar da noite para o dia. Não se fabricam sistemas antiaéreos, mísseis, drones, munições de artilharia, blindados, navios, satélites, infraestrutura logística e pessoal treinado com a velocidade de um comunicado oficial. A própria União Europeia apresentou, em março de 2025, o plano Readiness 2030, acompanhado do chamado ReArm Europe Plan, justamente para acelerar investimentos e reconstruir capacidades de defesa até o fim da década. 

Ou seja: a Europa está correndo. Mas está correndo porque percebeu tarde demais que havia caminhado lentamente por tempo demais.

A questão da munição é emblemática. A Reuters informou que a iniciativa tcheca de fornecimento de munições para a Ucrânia se tornou peça importante do esforço de abastecimento de Kyiv, inclusive com projeção de entregar 1,8 milhão de projéteis de artilharia em 2025, o que representaria parcela expressiva do total enviado à Ucrânia. A mesma reportagem registrou, porém, dificuldades de financiamento, indicando que, mesmo quando há coordenação, a sustentação material da guerra continua sendo um desafio. 

Isso é politicamente explosivo. Demonstra que o Ocidente continua tendo imenso poder econômico, tecnológico e militar, mas nem sempre consegue transformar esse poder em resposta rápida, coerente e sustentada. O arsenal existe em tese; a prontidão falta na prática. O discurso é firme; a linha de produção é lenta. A indignação moral é imediata; a capacidade de reposição é demorada.

A dependência americana e a fadiga dos aliados

Durante boa parte do pós-guerra, a Europa pôde se dar ao luxo de terceirizar sua segurança estratégica para os Estados Unidos. A proteção americana virou uma espécie de atmosfera: todos respiravam, poucos pensavam nela.

A discussão dentro da OTAN sobre metas mais altas de investimento militar não é detalhe contábil. É confissão estratégica. Se 2% do PIB bastassem, não se falaria em 5%. Se a estrutura estivesse adequada, não haveria plano europeu de rearmamento. Se a prontidão fosse satisfatória, não se falaria em “Readiness 2030”. A linguagem burocrática suaviza, mas o conteúdo é grave: a Europa está tentando recuperar, em poucos anos, décadas de negligência defensiva.

E há outro elemento ainda mais delicado: o protagonismo americano já não é o mesmo, nem em capacidade política interna, nem em disposição de carregar indefinidamente os custos da ordem internacional. Washington continua sendo indispensável, mas já não quer ser tratado como garantidor automático de aliados que demoram a agir, gastam tarde e divergem quando a hora exige unidade.

Isso não significa que os Estados Unidos desaparecerão do tabuleiro. Significa algo talvez mais perigoso: os adversários podem começar a apostar que a resposta americana será mais seletiva, mais lenta, mais politicamente condicionada e mais contestada internamente.

É nesse ponto que o risco de hecatombe cresce. Guerras mundiais raramente começam porque um lado tem certeza absoluta de que vencerá. Muitas vezes começam porque alguém calcula mal a disposição do outro lado de reagir. A fraqueza percebida pode ser tão perigosa quanto a fraqueza real.

Os regimes autoritários aprenderam a ler nossas hesitações

Enquanto o Ocidente debate, posterga, condiciona, vota, revota, anuncia, reconsidera e mede o custo eleitoral de cada decisão, os regimes revisionistas observam. E aprendem.

A Rússia aprendeu que pode absorver sanções mais do que muitos imaginavam. Aprendeu que guerra prolongada exige brutalidade, mobilização industrial, repressão interna e alianças alternativas. Aprendeu que a fadiga ocidental é uma variável militar. Se Kyiv depende de ciclos políticos em Washington, Bruxelas, Berlim, Paris e Londres, Moscou calcula o tempo como arma.

A China aprendeu que a guerra na Ucrânia testa não apenas a Rússia, mas a capacidade ocidental de sustentar um aliado sob pressão prolongada. Pequim observa munição, sanções, opinião pública, coesão parlamentar, estoques, capacidade industrial, dependência energética, vulnerabilidade tecnológica e velocidade decisória. Taiwan, o Mar do Sul da China e a arquitetura do Indo-Pacífico estão sendo medidos também a partir do que se vê na Europa.

O Irã aprendeu que pode operar por camadas: proxies, milícias, pressão regional, chantagem energética, drones, mísseis, retórica nuclear, ataques indiretos e guerra de desgaste. A escalada entre Israel e Irã, em 2025, com ataques de ambos os lados, civis mortos e feridos e temor de conflito regional mais amplo, mostrou como a instabilidade do Oriente Médio pode rapidamente ultrapassar fronteiras nacionais. 

A Coreia do Norte aprendeu que seu isolamento pode ser convertido em utilidade estratégica. Ao se aproximar de Moscou e manter laços com Pequim, Pyongyang deixa de ser apenas um problema regional e passa a compor uma rede de regimes hostis à ordem liderada pelos Estados Unidos. A Associated Press noticiou recentemente que Kim Jong Un manifestou apoio à busca chinesa por uma ordem “multipolar” e reforçou, em encontro com o chanceler chinês, a importância de aprofundar relações com Pequim em meio às tensões globais. 

Esse é o ponto essencial: os adversários do Ocidente não precisam ser plenamente unidos em tudo. Basta que sejam suficientemente convergentes contra a ordem existente. Não precisam amar uns aos outros. Basta que compartilhem um objetivo negativo: reduzir a influência americana, desgastar alianças ocidentais, enfraquecer normas internacionais e testar os limites da resposta democrática.

A Reuters já havia registrado que a Rússia assinou um tratado de parceria estratégica com o Irã, depois de acordos semelhantes com China e Coreia do Norte, e observou que Moscou tem usado essas relações para amortecer o impacto das sanções ocidentais e impulsionar seu esforço de guerra na Ucrânia. 

Portanto, o chamado “eixo das ditaduras” talvez não seja uma aliança formal nos moldes da OTAN. Mas isso não o torna menos perigoso. Pelo contrário: sua flexibilidade pode torná-lo mais difícil de conter. Ele funciona por conveniência, oportunismo, ressentimento geopolítico, comércio de tecnologia, energia, armas, drones, munições, sanções burladas, diplomacia paralela e apoio mútuo em organismos internacionais.

O Ocidente confundiu riqueza com poder

Uma das ilusões mais perigosas da nossa época foi imaginar que sociedades ricas são automaticamente sociedades fortes. Não são.

Riqueza só vira poder quando há coesão social, capacidade industrial, visão estratégica, liderança política, disposição de pagar custos e clareza moral sobre o que precisa ser defendido. Sem isso, riqueza vira conforto vulnerável. Vira consumo sem resiliência. Vira orçamento sem prontidão. Vira tecnologia sem coragem.

O SIPRI registrou que o gasto militar global chegou a US$ 2,718 trilhões em 2024, um aumento real de 9,4% em relação a 2023, a maior alta anual desde o fim da Guerra Fria. O crescimento foi especialmente intenso na Europa e no Oriente Médio, exatamente as regiões mais tensionadas pelos conflitos recentes. 

Esses números revelam uma corrida. Mas corridas armamentistas não são vencidas apenas por quem gasta mais. São vencidas por quem consegue transformar gasto em estoque, estoque em prontidão, prontidão em dissuasão e dissuasão em credibilidade.

A grande pergunta é: o Ocidente ainda é crível?

Crível não no sentido moral — porque, apesar de seus erros, hipocrisias e contradições, as democracias liberais ainda oferecem um horizonte humano superior ao dos regimes autoritários. A pergunta é outra: o Ocidente ainda é crível como força de contenção? Ainda consegue convencer seus adversários de que certas linhas não podem ser cruzadas? Ainda consegue fazer com que Moscou, Pequim, Teerã e Pyongyang acreditem que o preço da agressão será alto demais?

Essa é a pergunta que paira sobre Kyiv. Sobre Tel Aviv. Sobre Taipei. Sobre Varsóvia. Sobre os Bálcãs. Sobre o Golfo. Sobre o Mar Vermelho. Sobre o Ártico. Sobre o Indo-Pacífico.

A crise moral das democracias cansadas

Existe, porém, uma dimensão ainda mais profunda: a crise de vontade.

As democracias contemporâneas se tornaram sociedades excelentes em reivindicar direitos, mas cada vez menos preparadas para sustentar deveres coletivos. Querem segurança sem custo, liberdade sem disciplina, prosperidade sem sacrifício, soberania sem fronteiras claras, influência global sem poder militar proporcional, paz sem dissuasão e valores sem consequência.

O adversário autoritário olha para isso e enxerga oportunidade.

Regimes como Rússia, China, Irã e Coreia do Norte não precisam convencer suas populações por meio do mesmo grau de debate público que as democracias exigem. Podem reprimir, censurar, mobilizar, mentir, sacrificar vidas e prolongar conflitos com custos humanos que seriam politicamente explosivos em sociedades abertas. Isso não os torna melhores. Torna-os perigosos de outra forma. São sistemas com menos freios morais internos e maior capacidade de operar no longo prazo sob coerção.

É por isso que a desunião ocidental importa tanto. Quando democracias discutem, isso é virtude. Mas quando democracias se paralisam diante de ameaças existenciais, a virtude vira vulnerabilidade. O debate é sinal de saúde; a incapacidade de decidir é sintoma de doença.

A diferença é crucial.

O Ocidente não está fraco porque debate. Está fraco quando debate para não decidir. Está fraco quando transforma prudência em desculpa, complexidade em paralisia e medo de escalada em aceitação gradual da agressão alheia.

A Ucrânia como laboratório da nova guerra

A guerra na Ucrânia deixou claro que a nova guerra não é apenas territorial. É industrial, informacional, tecnológica, psicológica, energética, diplomática e demográfica.

Drones baratos desafiam sistemas caríssimos. Artilharia volta ao centro do campo de batalha. Guerra eletrônica decide movimentos. Satélites privados tornam-se ativos estratégicos. Redes sociais viram campo de operação psicológica. Sanções precisam ser globais para funcionar plenamente. Munição, não retórica, sustenta resistência.

A Ucrânia provou coragem. Mas também provou a insuficiência do arsenal ocidental disponível para uma guerra prolongada de alta intensidade. O fato de aliados precisarem criar mecanismos específicos para comprar munição em mercados globais já demonstra que a capacidade produtiva existente não estava dimensionada para o tipo de guerra que voltou ao continente europeu. 

E aqui está o alerta maior: se a guerra na Ucrânia já tensiona estoques, orçamentos e consensos políticos, o que aconteceria em caso de crise simultânea em Taiwan, escalada no Golfo, nova ofensiva russa contra outro ponto da Europa e colapso de rotas marítimas estratégicas?

Essa é a palavra: hecatombe.

Não necessariamente como explosão única. Mas como colapso em cadeia. Um mundo onde várias crises se somam, drenam recursos, confundem prioridades, dispersam atenção, dividem alianças e encorajam novos agressores.

O Oriente Médio como multiplicador de instabilidade

O Oriente Médio nunca foi apenas regional. Ele é energético, religioso, militar, simbólico e geopolítico. Quando o Oriente Médio arde, o mundo sente no petróleo, nas bolsas, nas cadeias logísticas, nas migrações, no terrorismo, nas alianças e nas urnas.

A escalada entre Israel e Irã, somada à atuação de Hezbollah, Hamas e outros grupos, revela uma arquitetura de guerra indireta que desafia a lógica tradicional de contenção. A Reuters registrou, em junho de 2025, que Israel lançou ataques de grande escala contra instalações nucleares e fábricas de mísseis iranianas, enquanto os mercados reagiram com queda nas bolsas e alta expressiva do petróleo. 

Mesmo quando há cessar-fogo, a região não volta exatamente à paz. Volta a uma espécie de intervalo armado. Gaza continua devastada. O Líbano segue vulnerável. Israel permanece em estado de alerta. O Irã opera entre recuo tático e ameaça estratégica. As monarquias do Golfo calculam riscos. Os Estados Unidos tentam administrar várias frentes ao mesmo tempo.

E os adversários observam novamente: quanto custa distrair Washington? Quanto custa dividir a atenção ocidental? Quanto custa forçar os Estados Unidos a escolher entre Europa, Oriente Médio e Indo-Pacífico?

Talvez a maior ameaça contemporânea não seja uma guerra isolada, mas a simultaneidade. O Ocidente pode vencer uma crise. Pode administrar duas. Mas e se quatro ou cinco crises forem aceleradas ao mesmo tempo por atores diferentes, ainda que informalmente coordenados?

A ordem internacional está sendo testada por saturação

A palavra-chave é saturação. Saturar estoques. Saturar orçamentos. Saturar parlamentos. Saturar a atenção pública. Saturar a diplomacia. Saturar a paciência dos eleitores. Saturar a capacidade americana de estar em todos os teatros. Saturar a coesão europeia. Saturar a narrativa moral das democracias.

É assim que uma ordem mundial pode ruir sem uma declaração formal de guerra mundial. Não por um único golpe, mas por fadiga sistêmica. Não por uma batalha final, mas por uma sequência de desafios que torna cada resposta mais lenta, mais cara e mais politicamente contestada.

A Avaliação Anual de Ameaças da Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos, publicada em 2025, descreveu um ambiente no qual a cooperação crescente entre China, Rússia, Irã e Coreia do Norte amplia riscos e pode fazer com que hostilidades envolvendo um desses atores acabem atraindo outros. 

Essa leitura converge com o que os fatos mostram: não estamos diante de incidentes desconectados. Estamos diante de uma disputa sobre quem escreverá as regras do próximo mundo.

O erro fatal: achar que a paz é o estado natural das coisas

A geração ocidental formada depois da Guerra Fria foi educada numa ilusão: a de que a paz liberal era o destino normal da humanidade. Guerras continuariam existindo, mas seriam periféricas. Ditaduras sobreviveriam, mas estariam na defensiva. A globalização tornaria grandes conflitos irracionais. O comércio domesticaria adversários. A interdependência substituiria a dissuasão.

Essa tese morreu em várias etapas: na Geórgia, na Crimeia, na Síria, em Hong Kong, em Kabul, na Ucrânia, em Gaza, no Mar Vermelho, no Líbano, no Irã, nas ameaças a Taiwan. Morreu também nas fábricas de munição que não produziam o suficiente, nos arsenais que estavam baixos, nos eleitores cansados, nos parlamentos divididos, nas redes sociais manipuladas e nas lideranças incapazes de explicar à população que liberdade custa caro.

A paz não é o estado natural das coisas. A paz é uma construção moral, política, militar e espiritual. Ela precisa ser sustentada. E, quando não é sustentada, não desaparece de uma vez. Primeiro, ela perde credibilidade. Depois, perde fronteiras. Depois, perde defensores. Por fim, perde a guerra antes mesmo de admitir que entrou nela.

O eixo autoritário aposta na decadência da nossa paciência

O eixo autoritário não precisa derrotar o Ocidente em uma batalha convencional direta. Basta convencê-lo de que resistir é caro demais.

Essa é a lógica: tornar cada defesa moralmente confusa, financeiramente pesada, eleitoralmente impopular, militarmente arriscada e diplomaticamente interminável. A Ucrânia vira “guerra distante”. Taiwan vira “problema chinês”. Israel vira “complicação insolúvel”. O Irã vira “risco de escalada”. O Mar Vermelho vira “custo logístico”. A OTAN vira “fardo americano”. A defesa vira “gasto socialmente insensível”. A soberania vira “tema antiquado”. A liberdade vira “retórica ocidental”.

Quando essa narrativa vence, os tanques nem precisam chegar. A capitulação começa antes, dentro da linguagem.

Por isso, a guerra informacional é central. O objetivo não é apenas mentir. É cansar. É produzir cinismo. É fazer o cidadão democrático acreditar que todos são iguais, que nada vale a pena, que toda resistência é hipocrisia, que toda aliança é interesseira, que toda defesa é provocação, que toda prudência é covardia e que toda coragem é loucura.

É nesse ambiente que regimes autoritários avançam: não porque sejam invencíveis, mas porque apostam que as democracias perderam a confiança em si mesmas.

O que ainda pode evitar a hecatombe

Apesar de tudo, o desfecho dantesco não é inevitável. Mas evitá-lo exige abandonar ilusões.

Primeiro, o Ocidente precisa reconstruir sua base industrial de defesa. Não basta anunciar valores. É preciso produzir munição, drones, sistemas antiaéreos, guerra eletrônica, navios, satélites, semicondutores estratégicos, energia resiliente e infraestrutura protegida.

Segundo, precisa reordenar prioridades. Defesa não é luxo de militarista. É pré-condição da liberdade. Sem segurança, não há política social, democracia, direitos humanos, universidades livres, imprensa independente, culto religioso livre ou mercado estável.

Terceiro, precisa restaurar a dissuasão. A melhor guerra é aquela que o agressor desiste de começar porque acredita que o custo será insuportável. Para isso, a resposta ocidental precisa ser previsível na firmeza, ainda que prudente na forma.

Quarto, precisa compreender que alianças não sobrevivem apenas por documentos. Sobrevivem por confiança. E confiança exige contribuição real, divisão de fardos e clareza sobre ameaças comuns.

Quinto, precisa vencer a guerra moral dentro de casa. As democracias precisam voltar a explicar por que merecem ser defendidas. Não como sistemas perfeitos, mas como os únicos em que ainda é possível corrigir erros sem campos de prisioneiros, trocar governos sem tanques nas ruas, criticar líderes sem desaparecer e buscar justiça sem pedir permissão ao partido único.

A palavra é mesmo hecatombe

Sim, a palavra é dura. Mas talvez seja exatamente por isso que ela seja necessária.

Hecatombe não é apenas o desastre depois que ele acontece. É também o nome do desastre quando ainda pode ser visto no horizonte e, mesmo assim, é tratado como exagero por aqueles que confundem normalidade com permanência.

Estamos brincando com um potencial destrutivo que nossas categorias políticas habituais já não conseguem conter. As guerras na Europa e no Oriente Médio revelaram algo pior do que a existência dos conflitos: revelaram a vulnerabilidade dos que deveriam contê-los. Revelaram que os “mocinhos” estão menos unidos, menos preparados e menos decididos do que imaginavam. E revelaram que os “bandidos” estão mais capazes, mais pacientes, mais articulados e mais atentos às nossas fraquezas do que gostaríamos de admitir.

O mundo não está apenas em crise. Está em transição. E transições internacionais costumam ser perigosas quando uma ordem antiga perde autoridade antes que uma nova ordem estável exista.

O eixo autoritário percebeu a rachadura. A Europa tenta correr atrás do prejuízo. Os Estados Unidos já dão sinais de seletividade e cansaço. O Oriente Médio arde em camadas. A Ucrânia sangra em nome de uma fronteira que é também simbólica. A China observa. A Rússia insiste. O Irã testa. A Coreia do Norte se oferece como peça útil. E as democracias discutem se ainda vale a pena pagar o preço da própria sobrevivência.

Se não houver lucidez, coragem e reconstrução estratégica, a história poderá registrar que a hecatombe não começou quando os mísseis caíram, mas quando os homens livres foram avisados — e preferiram chamar o aviso de alarmismo.

 

 





Referências Utilizadas

OTAN — Relatório Anual do Secretário-Geral / investimento em defesa

Dados sobre o aumento dos gastos de defesa dos aliados europeus e do Canadá, além do compromisso de elevação do investimento militar dentro da aliança. 

OTAN

 

Comissão Europeia — White Paper for European Defence / Readiness 2030

Documento que apresenta o plano europeu de prontidão e rearmamento, reconhecendo a necessidade de acelerar investimentos em capacidades de defesa. 

Defence Industry and Space

 

Reuters — Iniciativa tcheca de munição para a Ucrânia

Reportagem sobre o papel da iniciativa tcheca no fornecimento de munições para Kyiv e sobre dificuldades de financiamento, ilustrando gargalos industriais e logísticos do apoio ocidental. 

Reuters

 

Reuters — Tratados estratégicos da Rússia com Irã, Coreia do Norte e China

Reportagem sobre a aproximação estratégica de Moscou com regimes adversários dos Estados Unidos e seu uso para amortecer sanções e sustentar o esforço de guerra russo. 

Reuters

 

SIPRI — Tendências dos gastos militares globais em 2024

Dados sobre o gasto militar mundial de US$ 2,718 trilhões em 2024 e aumento real de 9,4%, o maior avanço anual desde o fim da Guerra Fria. 

SIPRI

 

Reuters — Escalada Israel-Irã em junho de 2025

Reportagem sobre ataques entre Israel e Irã, vítimas civis e temor de ampliação do conflito regional. 

Reuters

 

Reuters — Ataques israelenses ao Irã e reação dos mercados

Reportagens sobre ataques israelenses a instalações iranianas, queda das bolsas e alta do petróleo, demonstrando o impacto global imediato da instabilidade no Oriente Médio. 

Reuters · 1

 

Associated Press — China e Coreia do Norte / ordem multipolar

Notícia sobre o apoio de Kim Jong Un à agenda chinesa de uma ordem multipolar e o aprofundamento das relações entre Pyongyang e Pequim. 

AP News

 

Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos — Annual Threat Assessment 2025

Relatório que descreve a cooperação crescente entre China, Rússia, Irã e Coreia do Norte como fator de ampliação dos riscos estratégicos para os Estados Unidos e seus aliados. 

DN

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A crise não é institucional. É de caráter

 

Por Jânsen Leiros Jr. 

O avanço das fraudes no Brasil não é apenas reflexo de falhas institucionais ou tecnológicas. É o sintoma de uma crise ética profunda, onde o “se dar bem” substituiu o caráter e a vantagem passou a valer mais do que a retidão.

Há uma tentação recorrente — quase automática — de explicar o crescimento exponencial de fraudes, golpes e maracutaias no Brasil como fruto exclusivo de fatores externos: avanço tecnológico, falta de educação digital, falhas regulatórias, desigualdade social. Tudo isso existe. Tudo isso pesa. Mas nada disso explica o essencial.

O que está por trás da enxurrada de golpes que atravessa todas as camadas da sociedade brasileira não é apenas oportunidade. É disposição moral.

📌 Aristóteles já advertia, na Ética a Nicômaco, que o caráter não se forma pelo discurso, mas pelo hábito — e que uma sociedade se revela não pelo que proclama, mas pelo que pratica.

O brasileiro médio — ou, ao menos, uma parcela cada vez mais visível e ruidosa — não apenas se beneficia da fragilidade alheia quando pode; ele naturalizou o benefício indevido como virtude. O “se dar bem” tornou-se critério de inteligência. O atalho virou prova de esperteza. A ética passou a ser vista como ingenuidade — quando não como burrice.

Quem perde um bem “deu mole”.

Quem cai num golpe “mereceu”.

Quem não aproveita a oportunidade é “otário”.

Esse vocabulário não é casual. Ele revela um ambiente moral corrompido, onde a responsabilidade pelo mal é sempre deslocada para a vítima, e nunca para quem o pratica.

📌 Agostinho de Hipona já observava que uma sociedade sem justiça não passa de “um grande bando de ladrões organizados”. Quando o erro se torna norma, a injustiça deixa de causar escândalo.

Não se trata mais do criminoso profissional, isolado à margem da sociedade. Trata-se do malandro circunstancial, do ético intermitente, do cidadão que não rouba porque teme a punição — ou porque não sabe como fazê-lo. Não porque seja errado. Não por convicção. Mas por cálculo.

Quando o freio é externo, o caráter já não existe.

E isso explica por que o glamour do crime se espalha com tamanha facilidade. Só se romantiza o bandido em sociedades que já perderam o apreço pela honra. Quando o trabalho é desmoralizado, o mérito ridicularizado e a retidão tratada como atraso, o criminoso passa a ocupar o lugar simbólico do vencedor. O honesto vira o trouxa que “não soube jogar”.

📌 G. K. Chesterton alertava que, quando os valores se invertem, o mundo não deixa de ter moral — ele apenas passa a celebrar o que antes condenava.

A frase “todo mundo rouba” não é apenas uma desculpa esfarrapada. É uma cosmovisão. Ela absolve previamente qualquer desvio, dilui a culpa no coletivo e transforma o erro em regra social. Onde todos roubam, ninguém é responsável. Onde ninguém é responsável, nada precisa mudar.

É comum que, diante desse diagnóstico, surja um movimento quase instintivo de relativização: “não se pode generalizar”, “há fatores estruturais”, “é preciso compreender o contexto”. Compreender, sim. Normalizar, não. Explicar demais, nesse caso, vira uma forma elegante de desculpar o inaceitável.

📌 Simone Weil lembrava que o mal não precisa de grandes justificativas: basta que as pessoas parem de se importar. A indiferença moral é o solo mais fértil da injustiça.

O crescimento das fraudes no Brasil não é apenas um problema de legislação ou fiscalização. É o sintoma visível de uma crise ética profunda, que atravessa instituições, relações cotidianas e imaginários coletivos. Uma crise em que o valor supremo deixou de ser o ser e passou a ser o ter — custe o que custar, doa a quem doer.

E aqui está o ponto mais desconfortável: caráter não se compra, não se terceiriza, não se impõe por decreto. Não se resolve com aplicativo, nem com campanha publicitária. Caráter se forma — lentamente — ao longo de gerações, por compromissos sociais sinceros, por exemplos consistentes, por limites claros entre o aceitável e o inaceitável.

Esse tecido, no Brasil, está esgarçado.

Ainda existem pessoas íntegras. Muitas. Mas elas já não estruturam o imaginário coletivo. Sobrevivem como exceção, não como referência. E quando a virtude deixa de ser referência, o futuro vira disputa predatória: quem engana primeiro, quem leva vantagem, quem não fica para trás.

Não estamos diante apenas de uma crise institucional. Estamos diante de uma falência moral em curso.

E fingir que não é isso — dourando a pílula, suavizando o diagnóstico, deslocando a responsabilidade — talvez seja parte do próprio problema.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

Faltou falar: Quando a propaganda se infiltra no código da verdade

 

Por Jânsen Leiros Jr.

A publicidade oficial, ao invés de servir ao público, cada vez mais atua como agente de persuasão ideológica — remodelando não só o imaginário social, mas também os próprios sistemas de informação.

 

George Orwell — Escritor e ensaísta britânico“O discurso político é projetado para fazer mentiras parecerem verdadeiras e o assassinato respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento.”

 Hannah Arendt — Filósofa política alemã“A essência da propaganda totalitária não é a persuasão, mas a organização da mentira como verdade social.”

 Neil Postman — “Estamos nos afogando em informações irrelevantes, enquanto nos tornamos incapazes de discernir o que é verdadeiro, importante ou significativo.”

 

No texto anterior[1], analisamos a crescente e preocupante utilização da publicidade estatal como instrumento de manipulação da opinião pública. Mas há ainda pontos cruciais que merecem destaque e aprofundamento.

Além dos anúncios tradicionais em rádio, TV e jornais, o governo investe pesado em campanhas digitais que atuam diretamente nos algoritmos das redes sociais. Essa publicidade estratégica contorna a imprensa tradicional e molda, quase que de forma invisível, o conteúdo que milhões de brasileiros recebem no feed — muitas vezes sem que percebam o viés por trás da mensagem.

Esse tipo de comunicação institucional distorcida não é só um problema de marketing: é um risco grave para a democracia. Ao priorizar narrativas favoráveis, silenciando vozes críticas e reduzindo o espaço para o contraditório, enfraquece-se o senso crítico da população, base fundamental para qualquer regime democrático saudável.

Essa distorção não se limita à esfera humana da comunicação. Ela já alcança as inteligências artificiais. A enxurrada de matérias, postagens e conteúdos alinhados aos interesses governamentais — muitas vezes travestidos de jornalismo neutro — acaba alimentando os algoritmos de IA com uma narrativa única, artificialmente dominante.

O resultado é que usuários menos experientes, ao recorrerem a assistentes virtuais ou mecanismos de busca baseados em IA, recebem respostas moldadas por esse excesso de informações enviesadas. A repetição massiva da mesma perspectiva gera uma falsa sensação de consenso ou de verdade incontestável, quando na verdade se trata apenas da força bruta da repetição — uma falação estratégica que constrói uma realidade fingida, cuidadosamente produzida para parecer espontânea.

Essa nova forma de manipulação, sutil e automatizada, agrava o desafio democrático, pois não apenas influencia consciências, mas também reprograma os instrumentos que usamos para buscar a verdade. É a propaganda oficial entrando no código-fonte da realidade percebida.

Importante lembrar que a Constituição Federal, em seu artigo 37, impõe o princípio da impessoalidade no uso dos recursos públicos — ou seja, a publicidade governamental deve informar e servir a toda a sociedade, sem favorecer interesses políticos ou grupos específicos. Essa regra tem sido repetidamente desrespeitada nas práticas recentes, configurando não só um desvio ético, mas um abuso contra o patrimônio público e o próprio cidadão.

A propaganda estatal, quando usada como ferramenta de auto exaltação, transforma-se em instrumento de manipulação ideológica. Essa preocupação não é nova. George Orwell, em 1984, já denunciava o poder da propaganda como arma de controle social e reconfiguração da realidade. Hannah Arendt, ao analisar os regimes totalitários, advertia que a repetição massiva de mensagens governamentais pode remodelar o pensamento coletivo, eliminando o discernimento crítico e naturalizando o absurdo.

No campo democrático contemporâneo, autores como Noam Chomsky apontam como governos, mesmo em sistemas representativos, usam a mídia — muitas vezes aliada ao poder econômico — para "fabricar consentimento", conduzindo a opinião pública com técnicas sofisticadas de persuasão. A publicidade oficial, nesse contexto, deixa de ser serviço público e passa a ser catequese política disfarçada, onde o cidadão não é mais um interlocutor informado, mas um devoto condicionado.

O debate segue, porque a propaganda estatal não pode ser apenas espetáculo — não é show, nem palanque, muito menos novela de horário nobre. Deve ser, antes de tudo, responsabilidade e transparência. Quando o governante se torna o protagonista da própria encenação e transforma a comunicação pública em vitrine de autopromoção, quem perde é o cidadão, reduzido a plateia passiva de uma narrativa cuidadosamente roteirizada. Só quando a publicidade institucional abandonar os truques de ilusionismo e assumir seu papel republicano — de informar com clareza, ouvir com humildade e prestar contas com verdade — é que teremos, enfim, uma comunicação que respeita o povo, valoriza o contraditório e fortalece a democracia. Não com fogos de artifício, mas com luz.

 




A Verdade não se anuncia em intervalos

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Como a propaganda oficial tenta esconder a realidade brasileira por trás de jingles e sorrisos ensaiados.

 

George Orwell — Escritor e ensaísta britânico“A propaganda é à democracia o que a violência é à ditadura.”

 Hannah Arendt — Filósofa política alemã“O maior inimigo da verdade não é a mentira deliberada, mas a banalização da realidade.”

 Aldous Huxley — Escritor e filósofo britânico, autor de "Admirável Mundo Novo" “A tirania perfeita será aquela que parecer uma democracia, mas que na verdade será uma prisão sem muros, onde os prisioneiros não sonharão com a fuga porque amarão sua servidão.”

 

Há uma névoa que paira sobre o país — e não é a do clima. É a névoa produzida por jingles, slogans e campanhas de governo que tomam conta da mídia como um bálsamo ensaiado, tentando convencer o povo de que tudo vai bem, mesmo quando o chão falta debaixo dos pés.

Nos últimos anos, o governo federal reativou sua máquina de propaganda com uma voracidade que beira o desespero. Não se trata de comunicar ações ou prestar contas à população. Trata-se de salvar imagem, de revestir um desgaste crescente com a maquiagem cara das campanhas institucionais. Não é publicidade, é pregação política travestida de prestação de serviço.

Enquanto o brasileiro comum luta para entender o preço da gasolina, o corte no orçamento das universidades, a fila do SUS ou a insegurança nas ruas, o governo entope os meios de comunicação com mensagens otimistas, produzidas para estancar o derretimento nas pesquisas. O alvo não é a verdade — é a percepção. E como já dizia o velho Goebbels, "uma mentira repetida mil vezes vira verdade".

Para contextualizar, em 2015, sob o governo Dilma Rousseff, os gastos com publicidade federal caíram para R$ 1,864 bilhão, representando uma redução de 24,1% em relação ao ano anterior. No primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, os gastos foram de R$ 935 milhões. Em contraste, a previsão para 2025, sob o atual governo, é de até R$ 3,5 bilhões em contratos de publicidade, abrangendo ministérios, bancos e estatais.

Esse fenômeno não começou ontem. Mas o que se vê agora é um salto qualitativo e eticamente perturbador: os gastos com publicidade federal se concentram em agências de publicidade com histórico de proximidade com o governo, algumas delas reincidentes em contratos milionários, muitas vezes sem o devido processo de concorrência transparente. Além disso, os veículos de comunicação escolhidos para veicular as campanhas são criteriosamente alinhados à simpatia editorial para com o governo — ou, ao menos, à ausência de crítica contundente. Ora, não há brasileiros assistindo a outras emissoras? A intenção, em princípio, não é comunicar e conscientizar os cidadãos? Então os critérios deveriam ser técnicos e não políticos.

Basta observar que jornais e redes independentes, de linha mais crítica, foram paulatinamente excluídos da lista de beneficiários das verbas publicitárias federais, enquanto grupos tradicionais e portais favoráveis ao discurso oficial viram suas cotas aumentarem expressivamente. A publicidade estatal, que deveria seguir parâmetros impessoais e republicanos, transformou-se em moeda de troca por apoio, silêncio ou alinhamento ideológico. Não se premia o alcance, mas a conveniência. É a velha prática do “quem cala, recebe” — reeditada com sofisticação institucional. A máquina pública se move como uma engrenagem de campanha antecipada, sem dizer que é campanha, sem admitir que já se mira 2026.

E é aí que mora o escândalo. Porque quando a verba da publicidade pública vira instrumento de manipulação de consciência coletiva, o Estado se torna um vendedor de ilusões. E o povo, um consumidor forçado de propaganda paga com seu próprio imposto.

Enquanto o país é inundado por campanhas que exaltam avanços e “conquistas”, os números da realidade seguem em direção oposta — fria, dura, inegável. O endividamento das famílias brasileiras permanece elevado, com 77% das famílias endividadas em 2024, sendo que 29,4% relataram dívidas em atraso e 12,9% afirmaram não ter condições de quitá-las. Entre as famílias de menor renda (0 a 3 salários mínimos), o endividamento aumentou para 81,1%, com 37,5% relatando dívidas em atraso.

A população em situação de rua aumentou aproximadamente 25% no último ano, passando de mais de 261 mil em dezembro de 2023 para quase 328 mil no fim de 2024. Esse número é 14 vezes superior ao registrado onze anos atrás, quando havia 22.922 pessoas vivendo nas ruas no país. A Região Sudeste concentra 63% dessas pessoas, com destaque para o estado de São Paulo, que representa 43% do total.

O desemprego diminuiu, é verdade — mas foi substituído por ocupações informais, intermitentes ou de baixíssima remuneração. Cresce o número de brasileiros sobrevivendo como “autônomos compulsórios”: motoristas de aplicativo, entregadores, ambulantes, freelancers à deriva — muitos dos quais sequer contribuem para a previdência e tampouco têm acesso pleno a direitos trabalhistas básicos.

E, por fim, enquanto o governo anuncia feitos grandiosos na educação e na saúde, faltam remédios nos postos, segurança nas escolas e estrutura nos hospitais. A retórica das propagandas se choca com o cotidiano dos cidadãos comuns, que esperam por cirurgias, enfrentam salas de aula lotadas e percorrem longos trajetos em busca de atendimento.

A realidade não precisa de slogans. Ela fala sozinha. E quando ela grita, a propaganda se torna não apenas inócua — mas criminosa.

Há algo profundamente perigoso no uso reiterado da máquina publicitária estatal como instrumento de anestesia coletiva. Não se trata mais de mera comunicação institucional — aquela que informa, orienta, presta contas. O que temos é uma orquestra de narrativas cuidadosamente selecionadas, com trilhas otimistas, atores sorridentes e mensagens plastificadas, tentando colar um país imaginário sobre um país real e sofrido.

Enquanto o povo se aperta para pagar as contas, vive de bicos ou dorme sob marquises, o governo transmite uma ilusão de prosperidade. Como um mágico de auditório, esconde a realidade com movimentos teatrais e luzes artificiais. E nessa encenação cara e contínua, paga com o suor do contribuinte, transforma a dor coletiva em espetáculo palatável — e a gestão pública em marketing de vitrine. Não se trata de comunicação — mas de sedação.

O que está em jogo é mais do que um orçamento turbinado: é o próprio pacto democrático. Porque um governo que precisa gritar nos intervalos comerciais para parecer que governa, já não governa. Apenas encena. 

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Fontes e Referências

DADOS SOBRE GASTOS COM PUBLICIDADE GOVERNAMENTAL:

  1. Portal da Transparência (Governo Federal)
  2. Controladoria-Geral da União (CGU)
    • Relatórios anuais de execução orçamentária.
    • Utilizada para verificar comparativos de gastos por governo.
  3. Secom/PR – Secretaria de Comunicação da Presidência da República
    • Publicações e comunicados oficiais sobre planos de mídia e contratação de agências.
    • Usada como base para projeções e contratos atuais (governo 2025).
  4. Notícias da imprensa (sobre previsões de gastos publicitários)
    • Estadão, Folha, CNN Brasil, O Globo, Poder360, Agência Pública.
    • Exemplo:
      • CNN Brasil – “Governo federal prevê gastar até R$ 3,5 bilhões com publicidade em 2025”

DADOS SOCIOECONÔMICOS:

  1. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) – CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo)
  2. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
    • PNAD Contínua (desemprego e informalidade).
    • Dados utilizados para compor o trecho sobre ocupações informais e trabalho precário.
  3. IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
    • Estudos sobre população em situação de rua.
    • Dados usados para o trecho sobre o aumento da população sem moradia (2023–2024).
    • Relatório técnico IPEA 2024