segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A crise não é institucional. É de caráter

 

Por Jânsen Leiros Jr. 

O avanço das fraudes no Brasil não é apenas reflexo de falhas institucionais ou tecnológicas. É o sintoma de uma crise ética profunda, onde o “se dar bem” substituiu o caráter e a vantagem passou a valer mais do que a retidão.

Há uma tentação recorrente — quase automática — de explicar o crescimento exponencial de fraudes, golpes e maracutaias no Brasil como fruto exclusivo de fatores externos: avanço tecnológico, falta de educação digital, falhas regulatórias, desigualdade social. Tudo isso existe. Tudo isso pesa. Mas nada disso explica o essencial.

O que está por trás da enxurrada de golpes que atravessa todas as camadas da sociedade brasileira não é apenas oportunidade. É disposição moral.

📌 Aristóteles já advertia, na Ética a Nicômaco, que o caráter não se forma pelo discurso, mas pelo hábito — e que uma sociedade se revela não pelo que proclama, mas pelo que pratica.

O brasileiro médio — ou, ao menos, uma parcela cada vez mais visível e ruidosa — não apenas se beneficia da fragilidade alheia quando pode; ele naturalizou o benefício indevido como virtude. O “se dar bem” tornou-se critério de inteligência. O atalho virou prova de esperteza. A ética passou a ser vista como ingenuidade — quando não como burrice.

Quem perde um bem “deu mole”.

Quem cai num golpe “mereceu”.

Quem não aproveita a oportunidade é “otário”.

Esse vocabulário não é casual. Ele revela um ambiente moral corrompido, onde a responsabilidade pelo mal é sempre deslocada para a vítima, e nunca para quem o pratica.

📌 Agostinho de Hipona já observava que uma sociedade sem justiça não passa de “um grande bando de ladrões organizados”. Quando o erro se torna norma, a injustiça deixa de causar escândalo.

Não se trata mais do criminoso profissional, isolado à margem da sociedade. Trata-se do malandro circunstancial, do ético intermitente, do cidadão que não rouba porque teme a punição — ou porque não sabe como fazê-lo. Não porque seja errado. Não por convicção. Mas por cálculo.

Quando o freio é externo, o caráter já não existe.

E isso explica por que o glamour do crime se espalha com tamanha facilidade. Só se romantiza o bandido em sociedades que já perderam o apreço pela honra. Quando o trabalho é desmoralizado, o mérito ridicularizado e a retidão tratada como atraso, o criminoso passa a ocupar o lugar simbólico do vencedor. O honesto vira o trouxa que “não soube jogar”.

📌 G. K. Chesterton alertava que, quando os valores se invertem, o mundo não deixa de ter moral — ele apenas passa a celebrar o que antes condenava.

A frase “todo mundo rouba” não é apenas uma desculpa esfarrapada. É uma cosmovisão. Ela absolve previamente qualquer desvio, dilui a culpa no coletivo e transforma o erro em regra social. Onde todos roubam, ninguém é responsável. Onde ninguém é responsável, nada precisa mudar.

É comum que, diante desse diagnóstico, surja um movimento quase instintivo de relativização: “não se pode generalizar”, “há fatores estruturais”, “é preciso compreender o contexto”. Compreender, sim. Normalizar, não. Explicar demais, nesse caso, vira uma forma elegante de desculpar o inaceitável.

📌 Simone Weil lembrava que o mal não precisa de grandes justificativas: basta que as pessoas parem de se importar. A indiferença moral é o solo mais fértil da injustiça.

O crescimento das fraudes no Brasil não é apenas um problema de legislação ou fiscalização. É o sintoma visível de uma crise ética profunda, que atravessa instituições, relações cotidianas e imaginários coletivos. Uma crise em que o valor supremo deixou de ser o ser e passou a ser o ter — custe o que custar, doa a quem doer.

E aqui está o ponto mais desconfortável: caráter não se compra, não se terceiriza, não se impõe por decreto. Não se resolve com aplicativo, nem com campanha publicitária. Caráter se forma — lentamente — ao longo de gerações, por compromissos sociais sinceros, por exemplos consistentes, por limites claros entre o aceitável e o inaceitável.

Esse tecido, no Brasil, está esgarçado.

Ainda existem pessoas íntegras. Muitas. Mas elas já não estruturam o imaginário coletivo. Sobrevivem como exceção, não como referência. E quando a virtude deixa de ser referência, o futuro vira disputa predatória: quem engana primeiro, quem leva vantagem, quem não fica para trás.

Não estamos diante apenas de uma crise institucional. Estamos diante de uma falência moral em curso.

E fingir que não é isso — dourando a pílula, suavizando o diagnóstico, deslocando a responsabilidade — talvez seja parte do próprio problema.